Gangues em Londres exploram jovens sexualmente em esquema organizado
Uma investigação aprofundada da BBC revelou um cenário alarmante em Londres, onde mulheres vulneráveis e adolescentes a partir de 14 anos estão sendo sistematicamente atraídas por gangues para um mundo de sexo forçado e exploração. As evidências, coletadas ao longo de várias semanas através de entrevistas com dezenas de pessoas na capital britânica, incluindo cinco sobreviventes, mostram um padrão organizado de abuso que frequentemente começa com o aliciamento para tráfico de drogas e evolui para violência sexual extrema.
Vítimas descrevem estupros como 'pagamento' por dívidas
As histórias das sobreviventes são chocantes em seus detalhes. Muitas relatam ter sido estupradas por vários homens como forma de 'pagamento' por dívidas de drogas não quitadas, acumuladas junto às gangues que as controlavam. Outras afirmam ter sido aliciadas exclusivamente para fins sexuais, sem envolvimento inicial com atividades criminosas. "Eu tinha 15 anos. Estava sendo passada de homem para homem todas as noites — às vezes 10 ou 15 por mês", contou uma jovem identificada como Milly, que descreveu como os exploradores a embebedavam e drogavam antes dos abusos.
Um policial em Londres, o detetive sargento John Knox, chefe da equipe de exploração infantil da Polícia Metropolitana nos distritos de Lambeth e Southwark, foi categórico ao descrever a situação: "Dentro desse mundo das gangues, as meninas estão no degrau mais baixo e têm que fazer o que lhes mandam. E isso inclui sexualmente." Ele estima que haja pelo menos 60 crianças em sua área no sul de Londres sendo exploradas por gangues, com idades que variam de 13 a 15 anos.
Perfil diversificado das gangues desafia estereótipos
A investigação da BBC revela um quadro complexo em Londres, com gangues de diferentes origens étnicas atuando na capital. Enquanto relatórios governamentais anteriores haviam identificado números desproporcionais de homens de origem asiática entre suspeitos de exploração sexual infantil em grupo no norte da Inglaterra, a realidade londrina mostra uma diversidade maior. Policiais, assistentes sociais e sobreviventes insistem que as gangues que atuam em Londres vêm de origens étnicas muito diversas, incluindo brancos, sul-asiáticos e outras comunidades.
Kevin Southworth, comissário adjunto da Polícia Metropolitana, afirmou: "Pelos relatos que temos, não vemos um número desproporcional de suspeitos de uma etnia ou nacionalidade específica, mas sim de toda a gama diversa das comunidades londrinas." Uma vítima entrevistada pela BBC confirmou que sua experiência envolveu homens de "diferentes raças, idades e religiões".
Vulnerabilidade como porta de entrada para exploração
Assistentes sociais em contato com as vítimas destacam que muitas são extremamente vulneráveis, com origem em lares disfuncionais ou históricos problemáticos envolvendo abuso, drogas ou pobreza. Essa vulnerabilidade é explorada sistematicamente pelas gangues, que oferecem falsas promessas de pertencimento e atenção.
Kelly, outra sobrevivente, descreveu como foi aliciada: "Eu não tinha dinheiro, me sentia negligenciada e vi uma oportunidade de fazer parte de algo, então acabei fazendo algumas conexões ruins". Ela acrescentou que a exploração começou com tráfico de drogas, mas rapidamente evoluiu para relações sexuais forçadas. "Isso deu um propósito à minha vida por um tempo e me fez sentir necessária. Eu não sentia isso em casa", confessou.
Respostas das autoridades e investigações em andamento
O prefeito de Londres, Sadiq Khan, que anteriormente havia afirmado não haver "indicação de gangues de aliciamento" do tipo visto em Rotherham operando na capital, mudou recentemente seu posicionamento. Um porta-voz declarou que Khan quer apoiar a polícia para fazer "tudo o possível para combater toda exploração sexual infantil na capital, incluindo gangues de aliciamento".
A Polícia Metropolitana já anunciou que irá reexaminar pelo menos 1.200 casos de exploração infantil, após uma revisão nacional sobre exploração sexual infantil em grupo. Além disso, um inquérito independente sobre gangues de aliciamento, presidido pela baronesa Anne Longfield, deve começar ainda este ano, com "plenos poderes para exigir provas e realizar investigações locais", segundo o Ministério do Interior.
Cerca de 2 mil casos de exploração infantil são relatados à Polícia Metropolitana todos os anos, abrangendo exploração sexual infantil, exploração criminal infantil ou situações onde ambas as formas de abuso estão presentes. A corporação afirma ter implementado melhorias significativas na identificação e investigação desses crimes, incluindo treinamento para 23 mil policiais da linha de frente e expansão de suas equipes especializadas.



