Ex-primeira-dama da Coreia do Sul é condenada a prisão por suborno e escândalos de luxo
Ex-primeira-dama da Coreia do Sul condenada a prisão por suborno

Ex-primeira-dama da Coreia do Sul é condenada a prisão em julgamento histórico

A ex-primeira-dama da Coreia do Sul, Kim Keon Hee, foi condenada a um ano e meio de prisão nesta quarta-feira (28), em um veredito que expõe uma série de escândalos envolvendo subornos, presentes de luxo e interferência política. Esposa do ex-presidente Yoon Suk Yeol, que também enfrenta condenação, Kim foi presa em agosto passado sob múltiplas acusações, todas negadas por ela.

Os detalhes da condenação e as acusações

Os promotores acusaram Kim, de 52 anos, de lucrar mais de 800 milhões de wons, equivalente a aproximadamente R$ 2,9 milhões, por meio de um esquema de manipulação de preços de ações da Deutsch Motors, uma concessionária da BMW na Coreia do Sul. O período alegado vai de outubro de 2010 a dezembro de 2012.

Além disso, ela foi acusada de aceitar subornos no valor de até 80 milhões de wons, cerca de R$ 289,7 milhões, incluindo bolsas de luxo da Chanel, um colar de diamantes e outros presentes da controversa Igreja da Unificação, em troca de favores comerciais. Outra acusação envolve o recebimento de 58 pesquisas de opinião gratuitas, no valor de 270 milhões de wons, do corretor político Myung Tae-kyun antes da eleição presidencial de 2022.

A Justiça sul-coreana considerou Kim culpada de aceitar subornos de funcionários da Igreja da Unificação, mas a absolveu das acusações de manipulação de preços de ações e violação das leis de financiamento de campanha. Ainda há dois processos pendentes contra ela que não foram analisados pelo tribunal.

Escândalos anteriores e controvérsias

Antes de se tornar primeira-dama, Kim Keon Hee, nascida Kim Myeong-sin, era empresária no setor de artes. Ela se formou em educação artística pela Universidade Feminina de Sookmyung em 1999, mas enfrentou acusações de plágio em sua tese, o que levou a universidade a anular seu diploma no ano passado após investigação de um comitê de ética.

Em 2009, Kim fundou a empresa de exposições de arte Covana Contents, da qual ainda é CEO e presidente. Em 2019, a imprensa sul-coreana noticiou alegações de sonegação de impostos e recebimento de propinas por sediar exposições, mas ela foi inocentada dessas acusações em 2023, com um procurador reexaminando o caso.

Antes da eleição presidencial de 2022, surgiram alegações de que Kim havia submetido candidaturas com qualificações e prêmios falsos, desencadeando um escândalo. Em resposta, ela emitiu um pedido de desculpas por exageros em seu currículo e prometeu focar exclusivamente no papel de esposa caso seu marido se tornasse presidente.

O caso da bolsa de luxo e a queda do casal

No final de 2023, um vídeo feito com câmera escondida mostrou Kim recebendo uma bolsa de luxo de um indivíduo em Seul, em setembro de 2022. A filmagem, feita pelo pastor Choi Jae-young, mostrava a compra de uma bolsa de couro de bezerro azul-acinzentado por 3 milhões de wons e a entrega na empresa Covana Contents.

Segundo a lei sul-coreana, é ilegal funcionários públicos e seus cônjuges receberem presentes de mais de 1 milhão de wons de uma só vez ou que somem 3 milhões de wons em um ano fiscal. O gabinete presidencial confirmou o recebimento da bolsa, afirmando que estava sendo armazenada como propriedade do governo, mas a demora na resposta alimentou a controvérsia.

Este incidente foi uma das 16 alegações investigadas, com 12 encaminhadas à polícia. No mês passado, os promotores pediram uma pena de 15 anos de prisão e multa de 2 bilhões de wons, alegando que Kim se achava acima da lei e conspirou com a Igreja da Unificação para minar a separação entre religião e Estado.

Contexto familiar e desgraça pública

O veredito contra Kim surge menos de duas semanas depois de seu marido, o ex-presidente Yoon Suk Yeol, ter sido condenado a cinco anos de prisão por abuso de poder, falsificação de documentos e obstrução da Justiça, relacionado a uma tentativa fracassada de impor a lei marcial no país. A medida provocou protestos e turbulência nacional.

Juntos, Yoon e Kim formam uma dupla histórica: embora a Coreia do Sul tenha um histórico de ex-presidentes indiciados e presos, esta é a primeira vez que tanto um ex-presidente quanto uma ex-primeira-dama são encarcerados. A série de escândalos lançou uma sombra sobre a carreira presidencial de Yoon, selando seu destino como um dos ex-líderes mais desonrados do país.

A investigação sobre a tentativa de lei marcial de Yoon foi o ponto de partida para muitas das alegações contra Kim, destacando como a conduta do casal no poder gerou reações ferozes e um escrutínio público intenso. Com processos ainda pendentes, o caso continua a evoluir, refletindo tensões políticas e questões de integridade na Coreia do Sul.