Contrabando de Injetáveis para Emagrecer: Esquema Usa WhatsApp para Monitorar Fiscalização na Fronteira
Contrabando de Injetáveis: WhatsApp Monitora Fiscalização na Fronteira

Contrabando de Injetáveis para Emagrecimento: Esquema Usa WhatsApp para Monitorar Fiscalização na Fronteira

A venda ilegal de injetáveis para emagrecimento, flagrada pelo g1 no Centro Popular de Compras de Porto Alegre, só é possível graças a uma sofisticada logística montada a mais de 900 quilômetros da capital gaúcha. Entre as táticas empregadas pelos contrabandistas, destaca-se o monitoramento constante da fiscalização por meio de um mecanismo colaborativo: grupos de WhatsApp. Esse esquema é aplicado especialmente na região da aduana de Foz do Iguaçu, no Paraná, na fronteira com o Paraguai, onde funcionários da Receita Federal realizam controle permanente do que entra no Brasil.

Grupos de WhatsApp Vendidos por Intermediários

O acesso aos grupos de monitoramento é vendido por intermediários a R$ 100. O g1 teve acesso a um card que anuncia o serviço ilegal para "15 grupos exclusivos", que abrangem desde Foz do Iguaçu até Ponta Porã, no Mato Grosso do Sul. Entre as vantagens de fazer parte, estão "avisos em tempo real" sobre a movimentação dos fiscais, facilitando a evasão das autoridades.

Apelidos para Servidores e Vigilância Constante

A reportagem conseguiu áudios de um dos grupos, em que homens e mulheres descrevem, principalmente, a presença de policiais e analistas da Receita Federal na aduana localizada na Ponte da Amizade. Como não sabem os nomes dos servidores, os contrabandistas lançam mão de apelidos como "Harry Potter", "Wolverine" e "Cabeça Branca". Em um dos áudios, uma mulher relatou na sexta-feira (24): "Estava bem feio. Tinha uma van parada, Wolverine ali perto da lista. Tinha o 'Cabeça Branca' que estava ali também. Depois ele foi pra lá". No dia seguinte, outro contrabandista disparou um novo alerta: "Passei na esquerda, à esquerda só tem um senhor de cabeça branca, na direita tá o Harry Potter e na moto tem dois".

Resposta da Receita Federal e Complexidade do Crime

O auditor-fiscal Daniel Messias Linck, chefe da Divisão de Bagagem da Alfândega da Receita Federal em Foz do Iguaçu, afirma que os servidores que atuam na Ponte Internacional da Amizade são monitorados de forma constante por contrabandistas. Segundo ele, a vigilância ocorre de diversas maneiras: "Aqui na Ponte da Amizade nós somos permanentemente monitorados. Existem olheiros que circulam de moto, pessoas posicionadas em prédios próximos com binóculos. Somos observados o tempo todo". De acordo com Linck, o acompanhamento não se limita ao número de servidores em operação, mas envolve um mapeamento detalhado da atuação de cada fiscal. "Eles sabem onde cada servidor está e o que cada um está fazendo. Temos servidores especialistas em encontrar fundos falsos em veículos, outros em motos, outros em identificar comportamentos suspeitos por meio da linguagem não verbal. Os contrabandistas conhecem essas características".

Por isso, conforme o chefe da Divisão de Bagagem da Alfândega, a informação sobre a posição dos agentes se torna estratégica para as organizações criminosas. "Para eles, é fundamental saber onde cada servidor está. Isso nos obriga a adotar uma dinâmica diferente". Como resposta a esse monitoramento, a Receita Federal promove mudanças constantes na disposição das equipes. "Nós não podemos ficar sempre no mesmo lugar. Precisamos mudar de posição o tempo todo para criar o risco e a imprevisibilidade, de forma que a gente possa surpreender os contrabandistas".

Ampla Adoção em Crimes Transfronteiriços

Para o presidente do IDESF - Instituto de Desenvolvimento Econômico e Social de Fronteiras, Luciano Stremel Barros, essa prática também ocorre com outros tipos de crimes. "É importante ressaltar que esses grupos de WhatsApp funcionam como ferramentas amplamente adotadas em diversos crimes transfronteiriços, incluindo contrabando, tráfico de drogas, de armas e roubo de veículos. Essa prática revela uma interconexão entre diferentes modalidades criminosas, ampliando a atuação das facções e a complexidade do problema".

Venda Ilegal em Porto Alegre

Enquanto isso, em Porto Alegre, ampolas de Tirzepatida proibidas pela Anvisa são vendidas livremente no POP Center, no Centro da cidade. Durante um dia de apuração, a reportagem da RBS TV encontrou oferta aberta do produto, detalhamento de uso, promessa de entrega imediata e valores que chegam a R$ 1,69 mil. Essa venda ilegal de canetas emagrecedoras é um reflexo direto do esquema de contrabando que se beneficia do monitoramento via WhatsApp na fronteira, evidenciando como a logística criminosa se estende por centenas de quilômetros para abastecer o mercado negro.