Banco Master tentou repassar R$ 15,8 bi em créditos suspeitos ao BRB, revela relatório do Coaf
Master tentou repassar R$ 15,8 bi em créditos suspeitos ao BRB

Banco Master tentou transferir R$ 15,8 bilhões em créditos suspeitos ao BRB, aponta relatório do Coaf

O Banco Master tentou repassar um montante de R$ 15,8 bilhões em créditos ao BRB (Banco Regional de Brasília) entre setembro de 2024 e novembro de 2025. O objetivo era substituir R$ 12 bilhões em carteiras supostamente fraudulentas que haviam sido vendidas pela instituição financeira de Daniel Vorcaro ao banco público do Distrito Federal. As informações constam em um Relatório de Inteligência Financeira do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras), que analisa minuciosamente as relações entre o BRB e o Master.

Documento entregue à CPI do Crime Organizado detalha operações suspeitas

O documento, ao qual a reportagem teve acesso exclusivo, foi entregue à CPI do Crime Organizado. Ele se baseia em uma comunicação formal feita pelo banco estatal ao Coaf em 18 de novembro de 2025, exatamente no dia da deflagração da Operação Compliance Zero, que investiga fraudes no banco de Vorcaro. O Master, por sua vez, afirmou que não comentaria o assunto. Procurado por e-mail às 15h30 desta quinta-feira (12), o BRB não respondeu aos questionamentos da reportagem.

A operação policial contra Vorcaro foi deflagrada após o Banco Central identificar uma série de operações suspeitas entre o BRB e o Master, repassando as informações à Polícia Federal. Dessa forma, a notificação feita pelo BRB ao Coaf ocorreu somente depois que a PF prendeu Vorcaro pela primeira vez, na noite de 17 de novembro.

Empréstimos suspeitos e esquema de desvio de recursos

Entre as 47 operações de crédito listadas no relatório, que foram repassadas pelo Master ao BRB, estão empréstimos considerados suspeitos concedidos pelo Master para 36 empresas distintas. Uma dessas operações envolveu empréstimos no valor de R$ 1,9 bilhão para cinco dessas empresas. As transações chamaram a atenção do Banco Central porque o dinheiro obtido pelas empresas em empréstimos do Master era injetado nos fundos DMais e Bravo.

Ambos os fundos são administrados pela gestora Reag e, segundo as investigações em andamento, são suspeitos de repassar recursos a outros fundos que eram artificialmente inflados pelo Master por meio do uso de ativos financeiros podres. Essa valorização artificial permitia que o dinheiro fosse, ao final, desviado para Vorcaro, seus parentes e aliados.

A suspeita do Banco Central se intensifica porque os empréstimos não eram pagos de volta ao Master. De acordo com os investigadores, ao repassar essa carteira de empréstimos, muitos deles fraudulentos, ao BRB, o Master se livrava dos indicadores que elevavam a inadimplência e limpava o seu balanço, transferindo o problema de conseguir o ressarcimento para o banco estatal de Brasília.

Impactos no BRB e operações de compra de carteiras

O relatório do Coaf não deixa claro quais créditos foram efetivamente aceitos pelo banco controlado pelo governo do Distrito Federal, mas na lista constam operações que foram incorporadas ao balanço do banco. Entre os ativos repassados ao BRB estão recursos do fundo Jeitto, focado em crédito, com uma carteira superior a R$ 1 bilhão. Desse total, R$ 952 milhões estavam inadimplentes em dezembro de 2025, o que levou a um provisionamento de R$ 873 milhões, uma reserva de capital para arcar com potenciais perdas.

Os valores originam-se de empréstimos concedidos pelo Banco Master com uma cláusula específica: se houvesse inadimplência superior a 90 dias, o fundo arcaria com o prejuízo. No entanto, o fundo parou de cobrir as perdas no primeiro semestre de 2025. O relatório do Coaf aponta que a proposta de entrega do Jeitto para o BRB ocorreu em julho de 2025 pelo valor de R$ 532,2 milhões.

O BRB informou ao Coaf que realizava operações de compra de carteiras de crédito desde 2021, envolvendo nove instituições financeiras, não apenas o Master. Nesse tipo de operação, um banco vende dívidas a receber. O banco que compra os empréstimos paga menos do que o valor devido pelos tomadores, obtendo lucro quando os empréstimos são quitados.

"A partir do terceiro trimestre de 2024, o BRB passou também a adquirir carteiras de crédito consignado parcelado, cartão consignado e cartão consignado benefício do Banco Master", prossegue o informe do banco brasiliense ao Coaf. A compra de carteiras de crédito falsificadas deixou um rombo significativo no banco público, que agora busca recursos urgentemente para recompor seu capital e evitar uma liquidação.

CPI do INSS convoca cunhado e ex-namorada de Vorcaro

Em desdobramentos paralelos, a CPMI do INSS aprovou a convocação do cunhado e da ex-namorada de Daniel Vorcaro. A comissão reagendou os depoimentos que estavam marcados para esta quinta-feira (12). O cunhado do banqueiro, também pastor afastado da Igreja Batista da Lagoinha, Zettel, foi apontado pela Polícia Federal como operador financeiro do Master, conforme informações da Agência Brasil às 08:45 do dia 13 de março de 2026.