Casal dono de brechó virtual de artigos de luxo é preso após denúncia no Piauí
Um casal proprietário de um brechó virtual de artigos de luxo, denunciado pelo programa Fantástico há aproximadamente um ano, foi preso recentemente após uma nova denúncia registrada no estado do Piauí. Francine Costa Prado e seu marido, Filipe Prado dos Santos, foram detidos em uma mansão localizada em São José dos Campos, no interior de São Paulo, encerrando um ciclo de mentiras e prejuízos que afetou dezenas de consumidores em todo o Brasil.
Operação do brechó Desapego Legal e início dos problemas
O brechó virtual Desapego Legal funcionava na residência do casal e comercializava produtos de luxo, principalmente bolsas de marcas estrangeiras, através das redes sociais. Em janeiro de 2025, o Fantástico já havia exposto a situação, revelando que o casal havia dado um calote milionário e deixado vários clientes sem os produtos adquiridos. Com o passar do tempo, as reclamações continuaram a surgir, com novas denúncias de golpes sendo registradas em diferentes estados brasileiros.
Foi apenas quando uma vítima do Piauí decidiu tomar uma atitude mais enérgica que o caso ganhou novos contornos e levou à prisão dos envolvidos. A mulher, que preferiu não se identificar por medo de represálias, relatou à polícia de Teresina que havia efetuado uma compra de uma bolsa no valor aproximado de R$ 8 mil, com a promessa de envio imediato no dia seguinte à transação.
Desculpas esfarrapadas e notificação extrajudicial
"Eu efetivei a compra da bolsa no valor em torno de R$ 8 mil e me prometeram o envio imediato de um dia após a compra. Fui cobrar o código de rastreio e começaram as desculpas. Eu procurei meu advogado e, junto a ele, enviamos uma notificação extrajudicial a ela, e ela disse que eu poderia processar", contou a vítima ao relatar sua frustração com a situação.
Na sequência, o Desapego Legal, que já se encontrava em processo de recuperação judicial, publicou uma mensagem nas redes sociais tentando justificar a falta de entregas: "Após um dia inteiro de reuniões com a equipe jurídica e contábil, fomos informados de que não temos autorização legal para fazer entregas". A explicação, no entanto, não convenceu as autoridades nem as vítimas que continuavam sem receber os produtos adquiridos.
Organização criminosa e continuidade das atividades fraudulentas
Brasileiros de diversos estados que também haviam sido vítimas dos golpes decidiram processar Francine judicialmente. Apesar do brechó estar em recuperação judicial e de centenas de processos estarem tramitando na Justiça, Francine seguiu levando a vida normalmente, mantendo o perfil do brechó ativo nas redes sociais. Ela continuava recebendo pedidos, oferecendo e vendendo bolsas de luxo, fazendo novas vítimas mesmo com as denúncias públicas.
"A gente percebeu que era patente a intenção em enganar pessoas. Nós caracterizamos isso como uma organização criminosa justamente pela questão da empresa para o cometimento de crimes", afirmou Humberto Mácola, delegado da Polícia Civil do Piauí, ao explicar a gravidade do caso.
Depoimentos dos acusados e justificativas apresentadas
O Fantástico teve acesso aos depoimentos de Francine e Filipe após a prisão. Filipe, que aparece como único dono do brechó nas documentações, tentou explicar o motivo pelo qual as contas começaram a não fechar: "Em meados de março de 2024, a gente teve uma queda grande por taxação de dólar e queda de vendas, e a gente começou a não conseguir começar a cumprir os nossos contratos". Ele alegou que a recuperação judicial serviria para manter a empresa funcionando e conseguir pagar as dívidas acumuladas.
Francine, por sua vez, se declarou como gerente comercial e de vendas do empreendimento, tentando distanciar-se da responsabilidade direta pelas fraudes. A polícia também prendeu Ana Cristina Barbosa da Silva, madrasta de Francine, que trabalhava em conjunto com o casal nas atividades do brechó. Os três encontram-se atualmente detidos na cadeia pública de Caçapava, também no interior paulista.
Investigações em andamento e dimensão do prejuízo
A Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo informou que foram abertos nove inquéritos na região de São José dos Campos, sede do Desapego Legal. Parte desses inquéritos foi extinta após acordos com algumas vítimas, enquanto os que se mantiveram seguem os trâmites normais e alguns já foram encaminhados ao Poder Judiciário para análise e julgamento.
Segundo cálculos realizados pelos credores, a dívida total do Desapego Legal chega à impressionante cifra de quase R$ 20 milhões, afetando consumidores de várias regiões do país. "O meu sentimento hoje é de revolta, porque ela continua aplicando os golpes, ela continua nas redes sociais normalmente", desabafou uma das vítimas que preferiu não se identificar.
Recomendações das autoridades para evitar golpes similares
O delegado Humberto Mácola deixou um alerta importante para todos os consumidores que realizam compras online: "Sempre fica a recomendação: cheque antes de realizar qualquer tipo de transação financeira, qualquer pagamento, compras de produtos. Cheque a reputação, veja o que a internet fala a respeito daquilo". A orientação serve como um lembrete crucial em tempos onde o comércio virtual cresce exponencialmente, mas também atrai pessoas mal-intencionadas.
O caso do Desapego Legal exemplifica como golpes aplicados através de brechós virtuais podem causar prejuízos monumentais, destacando a necessidade de maior fiscalização e conscientização por parte dos consumidores brasileiros.