Golpistas usam imagem de advogado em vídeo chamada para aplicar golpes no RJ
A Ordem dos Advogados do Brasil no Rio de Janeiro (OAB-RJ) tem enfrentado um aumento alarmante de denúncias relacionadas ao golpe do falso advogado. Desde o início de 2025 até esta semana, a corregedoria já recebeu impressionantes 1.382 denúncias, o que representa uma média de quase quatro casos por dia. Esse número revela uma escalada preocupante de um crime que vem se sofisticando com o uso de tecnologia avançada.
Vídeo chamada fraudulenta atinge até familiar do advogado
O escritório do advogado Felipe Lima Gomes foi uma das vítimas desse esquema criminoso refinado. Em um caso particularmente chocante, os criminosos conseguiram realizar uma vídeo chamada com a própria mãe do profissional, utilizando sua imagem de forma fraudulenta. "Eu estava no carro com a minha mãe quando ligaram por chamada de vídeo. Apareceu a minha foto com outro número", relatou o advogado.
Ele descreveu que, quando sua mãe atendeu, apareceu por uma fração de segundo a imagem de uma pessoa sentada à mesa, usando camisa quadriculada e terno sem gravata, mas com seu rosto sobreposto digitalmente. Imediatamente após essa breve exibição, a chamada foi desligada e os golpistas enviaram uma mensagem alegando problemas de conexão.
Clientes são alvos de falsas liberações judiciais
Pelo menos 30 clientes do advogado Felipe Lima Gomes foram alvos desse golpe há aproximadamente 15 dias. Os criminosos se passavam pelo profissional para solicitar dinheiro sob o pretexto de liberação de valores judiciais. Todas as abordagens ocorreram através de mensagens no WhatsApp, utilizando técnicas de engenharia social cada vez mais convincentes.
Em uma das mensagens analisadas, o golpista afirmava que a vítima teria R$ 91 mil a receher e orientava, com erros gramaticais evidentes, que não seria necessário comparecer ao escritório. Em outro caso documentado, os criminosos chegaram a enviar um falso alvará judicial, informando a liberação de R$ 1 mil. Para receber o suposto dinheiro, as vítimas eram instruídas a depositar valores referentes a "custas do processo".
Método sofisticado invade contas bancárias
Segundo o relato do advogado, os criminosos desenvolveram um método particularmente perigoso. Eles orientam a vítima a abrir uma conta em banco digital, alegando que seria necessária para o recebimento do valor judicial. Uma vez que a vítima fornece os dados e acesso, os golpistas conseguem invadir a conta e retirar todo o dinheiro disponível.
Um caso específico envolveu um cliente idoso que perdeu pouco mais de R$ 800. "Eles pediram uma foto frontal, e ele enviou. No dia seguinte, o filho dele me ligou dizendo que a conta estava zerada", afirmou o advogado, demonstrando como a combinação de persuasão e acesso a dados pessoais resulta em prejuízos concretos.
Resposta institucional e medidas de combate
Diante desse cenário preocupante, a OAB-RJ mobilizou 52 advogados da corregedoria que atuam na apuração dos casos e colaboram diretamente com órgãos de investigação. Além disso, foi criada uma comissão especial dedicada exclusivamente ao combate ao golpe do falso advogado.
Ana Tereza Basílio, presidenta da OAB, alertou sobre a evolução do crime: "O problema é que o golpe vem sendo aprimorado. Já temos casos de replicação de voz e de imagem dos advogados. A tecnologia, infelizmente, tem favorecido esse tipo de crime". Essa observação destaca como ferramentas digitais, originalmente desenvolvidas para inovação, estão sendo desvirtuadas para atividades criminosas.
Na semana passada, o Tribunal de Justiça do Rio aceitou um pedido da OAB para implementar restrições em filtros de busca dentro dos sistemas de consulta processual. Esses sistemas eram considerados excessivamente vulneráveis à ação de criminosos, que os utilizavam para obter informações detalhadas sobre processos e partes envolvidas, facilitando a aplicação dos golpes.
O aumento expressivo nas denúncias – de cerca de quatro casos por dia – evidencia a necessidade urgente de conscientização pública e reforço nas medidas de segurança digital. A população, especialmente idosos e pessoas menos familiarizadas com tecnologia, precisa estar atenta a abordagens suspeitas, mesmo quando aparentam legitimidade através do uso de imagens e informações pessoais de profissionais reais.