Anúncios fraudulentos com IA assolam redes sociais e geram US$ 16 bilhões em receita para big techs
Anúncios falsos com IA geram US$ 16 bi para big techs em golpes

Fraudes digitais com IA assolam redes sociais e geram bilhões para plataformas

Anúncios falsos se espalham pelas redes sociais e levam usuários a caírem em golpes cada vez mais sofisticados. As empresas que controlam as plataformas afirmam que tentam conter as fraudes, mas os conteúdos enganosos continuam circulando livremente, gerando receitas astronômicas para as big techs.

Inteligência artificial torna golpes quase imperceptíveis

Os criminosos digitais estão utilizando ferramentas de inteligência artificial para criar anúncios prometendo facilidades inexistentes para acesso a serviços públicos e para produzir vídeos falsos com imagem e voz de pessoas conhecidas, conferindo credibilidade ilusória aos golpes. O médico Drauzio Varella relata que sua imagem é usada em fraudes na internet há pelo menos uma década e que o uso da IA tornou esses esquemas ainda mais perigosos.

"Mesmo pessoas que me conhecem falam: 'não, era você falando, eu vi você falando'. Eu digo: não era, é falsa a propaganda", afirma Varella. "E desde que isso começou, a gente tentou entrar em contato com eles, explicar que isso era propaganda falsa. Eles simplesmente ignoram. Por que eles ignoram? Eles ganham dinheiro para fazer isso".

Especialista alerta sobre vulnerabilidade coletiva

Marie Santini, especialista em manipulação e desinformação em redes sociais, destaca que todos estamos cada vez mais vulneráveis e que a responsabilidade não pode recair apenas sobre os usuários.

"A gente não pode transferir para o consumidor e para o usuário a responsabilidade de se proteger das fraudes e golpes", explica Santini. "A gente não pode pedir para que as pessoas passem a ser especialistas em identificação de inteligência artificial, ou checadores de informação, ou até médicos. E, por isso, a gente precisa de uma solução coletiva que passa pela regulamentação, passa pela fiscalização e passa pelo desincentivo econômico e em última instância na punição".

Migração alarmante do crime para o ambiente virtual

A última edição do Anuário de Segurança Pública revela uma transformação radical no cenário criminal brasileiro. Em um período de seis anos, o índice de roubos de todo tipo teve queda de 51% no país, enquanto os crimes na internet aumentaram impressionantes 408%.

Para um anúncio ser impulsionado e atingir um grande número de usuários na rede social, e-mail ou aplicativo de bate-papo, o contratante paga à big tech - geralmente com cartão de crédito. Ele precisa fazer um cadastro com apresentação de CPF ou CNPJ, no caso de empresa. O anúncio é então direcionado para o usuário com base em seus interesses, faixa etária, sexo: informações que as empresas de tecnologia possuem em seus bancos de dados.

Fiscalização insuficiente e lucros bilionários

"Essas empresas de tecnologia não têm feito o suficiente para evitar golpes e fraudes na rede, principalmente em relação aos anúncios, à publicidade, que é um serviço que elas vendem", critica Marie Santini. "Se uma empresa não tem condições de verificar o cadastro e os dados bancários de seus clientes, ela não pode nem operar, porque não garante segurança nem para o sistema financeiro nem para os próprios consumidores".

Uma reportagem da agência de notícias Reuters, com base em documentos da Meta - dona do Facebook, do Instagram e do WhatsApp - revela que a companhia estima que 10% de sua receita em 2024 vieram de anúncios fraudulentos: impressionantes US$ 16 bilhões.

Respostas das plataformas e ações judiciais

No Brasil, a Meta informa que o combate a fraudes e golpes on-line é uma prioridade; que está utilizando tecnologia de reconhecimento facial e detecção, aplicando políticas rigorosas e oferecendo ferramentas de segurança e alertas; que em 2025 removeu 159 milhões de anúncios fraudulentos, 92% deles antes de serem denunciados; e que está acionando a Justiça contra anunciantes que usam imagens de figuras públicas indevidamente.

O Google afirma que proíbe anúncios com representações fraudulentas e comércio de substâncias não aprovadas; que em 2024, 201 milhões de anúncios foram removidos e 1,3 milhão de contas de anunciantes suspensas; e que oferece uma ferramenta para que usuários denunciem possíveis violações.

A assessoria do X nos Estados Unidos declarou que proíbe globalmente a promoção de conteúdos fraudulentos, incluindo anúncios. Também por nota, o TikTok afirmou que não permite anúncios ou conteúdos manipulados, incluindo os gerados por inteligência artificial; e que os conteúdos que violavam as diretrizes da empresa foram removidos.

Ação governamental e desafios persistentes

Só em 2025, a Advocacia-Geral da União abriu mais de 150 processos pedindo a retirada de anúncios fraudulentos da internet. Em quase 90% dos casos conseguiu, mas reconhece que isso ainda é muito pouco diante da gravidade do problema.

"Hoje, a AGU tem uma equipe dedicada a isso", explica Flávio José Roman. "A gente poderia ter pessoas dedicadas a outras políticas públicas se não tivesse que ficar buscando informação errada na internet que leva a prejuízos financeiros aos contribuintes".

Marie Santini faz uma comparação reveladora: "Elas são capazes de diariamente retirar da plataforma conteúdo de pornografia, de mutilação, conteúdos muito tóxicos e pesados, e elas retiram realmente. Então, se elas têm condições de retirar esse tipo de conteúdo, elas têm condições de tirar qualquer tipo de conteúdo que esteja prejudicando a sociedade, o consumidor e o usuário que está ali dentro".

Especialistas afirmam que esses golpes se tornaram um problema não só de segurança digital, mas também de saúde pública, exigindo soluções urgentes e coordenadas entre governo, plataformas e sociedade.