A gabiroba gigante, uma fruta cítrica e rara da Mata Atlântica encontrada exclusivamente no Espírito Santo, ganhou destaque internacional ao ser transformada em um sorvete que conquistou o paladar do público em uma competição de gelatos. A fruta, de sabor marcante e ácido, depende de fatores específicos para frutificar, como a polinização por abelhas sem ferrão endêmicas do estado capixaba. Especialistas alertam que a espécie está ameaçada de extinção devido às mudanças climáticas e à redução de seu habitat natural.
O cultivo da gabiroba gigante
Adenilson Panzini, empresário do setor de rochas, conheceu a fruta há 30 anos e plantou um pé em sua propriedade em Vargem Alta, na Região Serrana do Espírito Santo. Hoje, a árvore adulta produz mais de 100 quilos de gabiroba por safra. O empresário, de 56 anos, congela grande parte da colheita e doa os frutos para escolas e chefs que preparam pratos como geleias, bolos e até cachaça. A versatilidade da gabiroba inspirou o projeto voluntário Experiência Cores e Sabores da Mata Atlântica, realizado por Panzini e pelo chef Ricardo Silva.
Características da fruta
- Sabor cítrico que lembra limão, porém mais ácido e intenso.
- Rica em vitamina C, fibras, potássio e cálcio.
- Auxilia na saúde intestinal.
- Cada fruto pode pesar até 400 gramas.
- Colheita ocorre entre julho e agosto.
- Utilizada em preparações que vão de sorvetes a ceviche.
- Prefere temperaturas amenas e ambientes úmidos.
- É a maior entre as espécies de gabiroba, daí o nome "gigante".
Raridade e importância ecológica
Segundo Nara Furtado, pesquisadora do Instituto Nacional da Mata Atlântica (INMA), a gabiroba gigante só tem registros em Cachoeiro de Itapemirim e Vargem Alta, no Espírito Santo. A espécie começa a frutificar com três anos de idade, o que é rápido para uma árvore. O tronco possui casca rugosa que se descama, característica comum a outras frutas da família, como jabuticaba e pitanga. A árvore pode variar de 3 a 10 metros de altura, e seus frutos atingem até 12 centímetros de diâmetro, superando as espécies próximas, que chegam no máximo a 8 centímetros.
Adenilson Panzini aprendeu a cultivar a gabiroba ao longo dos anos e montou um pequeno apiário com abelhas sem ferrão, essenciais para a polinização. Ele destaca três fatores fundamentais para a produção: altitude, umidade e a presença dos insetos. "Conheço gabirobas na mata que não produzem porque não há mais abelhas suficientes e a umidade mudou", afirma. O empresário ressalta que, se a planta for levada para regiões costeiras, pode não frutificar devido às condições inadequadas. Atualmente, a gabiroba está praticamente extinta na natureza, e o desequilíbrio ambiental agravou sua situação.
Sucesso gastronômico internacional
Gabriela Maretto, mestre sorveteira capixaba, descobriu a gabiroba por meio do projeto de Panzini e do chef Ricardo Silva. Apaixonou-se pela fruta e desenvolveu um sorvete que se tornou o preferido do público no Gelato Festival World Masters, realizado em julho em São Paulo. A receita leva mel de uruçu, geleia de frutas vermelhas e praliné de castanhas da Mata Atlântica. O sorvete, chamado Sabores da Mata, recebeu a Menção Honrosa do Júri Popular, reconhecimento dado ao sabor mais votado pelos consumidores presentes no evento, que contou com cerca de 20 mil visitantes.
Gabriela conta que muitos visitantes se emocionaram ao provar o sorvete. "Uma senhora chorou ao experimentar, disse que tinha sabor de infância. Todos queriam conhecer a gabiroba", relata. A sorveteira, que começou a fazer gelados na lavanderia da casa da mãe e retomou a paixão após um diagnóstico de Parkinson, vê na gabiroba uma oportunidade de valorizar frutos nativos e promover a preservação da Mata Atlântica.
Preservação e valorização
Adenilson Panzini distribui toda a colheita gratuitamente, gerando mudas e doando para escolas e chefs. Ele estima que um quilo da fruta rara pode valer até R$ 100. O empresário acredita que divulgar a gabiroba incentiva o cultivo e gera renda para o homem do campo, ao mesmo tempo que preserva o bioma. "Através das abelhas, você preserva um ecossistema inteiro. É um valor inexplicável", conclui.



