A quarta edição do festival Cena 2K, principal evento de rap do Brasil, realizada em novembro de 2025 na Neo Química Arena, em São Paulo, terminou em meio a uma série de problemas. Atrasos, brigas nos bastidores e o cancelamento do último dia de shows marcaram a edição, que ainda enfrenta contas a pagar com artistas, fornecedores e o público. O g1 conversou com diversos envolvidos que não receberam os valores combinados, incluindo cachês e reembolsos de ingressos. Dezenas de pessoas de vários estados recorreram à Justiça para reaver o dinheiro pago.
Problemas desde o início
Em 2019, o festival estreou com Quavo, do trio Migos, e nomes do rap nacional como Djonga e Filipe Ret. Em 2022, cresceu com Playboi Carti e Racionais MCs. Em 2025, já consolidado, o evento enfrentava problemas de fluxo de caixa e resistência de investidores da Four Even, empresa do segmento sertanejo. O primeiro contratempo surgiu com a mudança de datas: de 28 a 30 de novembro para 21 a 23 de novembro, devido à agenda do Corinthians. Isso gerou reclamações e pedidos de reembolso negados, como o de Maria Clara Alencar, que comprou ingressos na pré-venda e não conseguiu reaver o valor. O caso está na Justiça.
Perda de parcerias e advogados
Na semana anterior ao festival, o Cena 2K perdeu a parceria com a Bilheteria Digital, que afirmou ter repassado integralmente os valores arrecadados e rescindido o contrato em comum acordo. Além disso, os advogados do evento encerraram a parceria devido a negociações com o rapper Kanye West, que fez comentários antissemitas. Sem assessoria jurídica, as negociações de cachês foram feitas por WhatsApp, sem formalização legal.
Caos durante o evento
O festival começou no dia 21 de novembro com mais de 120 artistas anunciados. A grade horária foi divulgada horas antes, e vários shows de artistas menores tiveram o microfone cortado. O rapper Ryu, The Runner teve seu show cancelado de última hora. Nicole Kirsanoff, da produção, relatou falta de pulseiras e pagamentos. Ao menos seis artistas não receberam cachês, como Yuri Redicopa, que recebeu apenas R$ 700 de um cachê de R$ 15 mil e investiu R$ 40 mil no show. A rapper Nanda Tsunami também cobrou publicamente o pagamento.
No segundo dia, horários não foram divulgados oficialmente, e artistas tiveram que anunciar por conta própria. Nenhum grande nome internacional subiu ao palco: Young Thug, ASAP Ferg e outros foram cancelados por "motivos internos e externos". Uma briga generalizada entre a equipe do rapper Major RD e seguranças resultou em vidros quebrados. Major RD disse que foi impedido de entrar no próprio camarim.
Cancelamento do último dia
No domingo, com falta de pagamento de estrutura básica, a Neo Química Arena cancelou o evento após vistoria da Polícia Militar, que constatou ausência de serviços médicos obrigatórios. Nicole ainda aguarda o pagamento de R$ 600 dos R$ 3 mil acordados. Seis meses depois, dezenas de processos judiciais cobram reembolsos de ingressos. O advogado Ícaro Lamas, que representa consumidores, afirma que o festival deixou todos no escuro, sem transparência, e que o Código de Defesa do Consumidor autoriza reembolso integral, incluindo gastos com passagens e estadia, além de indenização por danos morais.



