A Alvorada Vermelha, um dos eventos mais emblemáticos que precedem o Festival de Parintins, no Amazonas, carrega consigo uma tradição que remonta aos primórdios da comunicação nas comunidades amazônicas: a figura do “convidador”. Antes da popularização do rádio, da televisão e da internet, esse personagem desempenhava um papel crucial na disseminação de informações, percorrendo localidades para anunciar festas, celebrações religiosas e outros acontecimentos importantes.
O papel do convidador na atualidade
Para o comunicador Sales Santos, esse método de divulgação ainda se mostra eficiente nos dias de hoje, especialmente por meio dos carros de som. “É um papel fundamental o carro de propaganda volante, o divulgador. Quando você liga um rádio ou a televisão e não quer ouvir, você desliga. Mas o carro de som não, queira ou não, você tem que ouvir”, afirmou.
Origens nas comunidades
Segundo o historiador Basílio Tenório, a tradição do convidador está enraizada no início da formação de Parintins, quando ainda não existiam ruas estruturadas. “Não havia ruas, só caminhos. Muitos proprietários de terra trouxeram a cultura nordestina, centrada na promessa aos santos. Então faziam festejos e era preciso convidar a vizinhança, inclusive de outras localidades, até do outro lado do rio”, explicou. Ele destaca que o convidador era uma figura respeitada na comunidade, responsável por reunir um grupo de pessoas para anunciar eventos de casa em casa.
A aposentada Georgina Mendonça recorda como esses convites eram feitos. “Não tinha outra opção. Iam na casa avisar: vai ter missa em tal igreja, em tal horário, ou convidar para o sétimo dia de alguém. Era assim que funcionava”, contou.
Ligação com a Alvorada Vermelha
Com o passar do tempo, essa prática foi incorporada à cultura do boi-bumbá. Em 1975, o apresentador Paulinho Faria saiu pelas ruas anunciando os ensaios do Garantido, em um formato semelhante ao dos antigos convidadores. Esse gesto deu origem à tradicional Alvorada Vermelha, hoje considerada patrimônio cultural do Amazonas. “Ele não foi só o primeiro apresentador oficial do Boi Garantido, como também o primeiro convidador oficial da cultura do boi-bumbá em Parintins”, destaca Basílio Tenório.
Tradição que resiste ao tempo
Mesmo com o avanço da tecnologia, o modelo de comunicação segue presente na rotina da cidade, seja em anúncios comunitários ou na divulgação de eventos. Em tom de brincadeira, Georgina ainda reproduz o estilo dos antigos avisos: “Atenção, atenção! O barco sai às 16h. Não esqueçam da bolsa e do dinheiro da passagem”. Hoje, no entanto, quando se trata da Alvorada do Boi Garantido, o convite já não é mais necessário — a tradição, por si só, continua atraindo multidões todos os anos.



