Paris investe 40 bilhões de euros em metrô para reduzir desigualdades e emissões de carbono
Paris amplia metrô com 200 km de linhas para integrar subúrbios

Paris investe 40 bilhões de euros em metrô para reduzir desigualdades e emissões de carbono

Uma trama reluzente de escadas rolantes desce sob uma claraboia circular de vidro, criando uma atmosfera que mais se assemelha a um átrio de museu do que a uma plataforma subterrânea. A estação Villejuif–Gustave Roussy, ao sul de Paris, projetada pelo arquiteto Dominique Perrault, é um símbolo visível da maior expansão do metrô da capital francesa em meio século. Concebida como um arranha-céu invertido, ela convida os passageiros a descerem sem a sensação de clausura típica dos sistemas subterrâneos, com aberturas que permitem a entrada de luz natural e conexão visual com a cidade.

O Grand Paris Express: uma revolução na mobilidade urbana

Esta estação integra a extensão da linha 14 e faz parte do Grand Paris Express, um megaprojeto que adicionará 200 km de trilhos e 68 novas estações ao sistema atual. Com quatro novas linhas automáticas, sem condutor, formando anéis ao redor da capital, o objetivo é conectar subúrbios entre si sem a necessidade de passar pelo centro histórico. Com um orçamento estimado em 40 bilhões de euros, equivalente a cerca de 250 bilhões de reais, trata-se de uma das maiores obras públicas em curso na Europa.

O projeto visa redesenhar a lógica de mobilidade da metrópole, rompendo com a estrutura radial que desde o século 19 fazia tudo convergir para o centro, dentro do périphérique. Ao criar conexões diretas entre bairros afastados, reduz-se os tempos de deslocamento e a dependência do automóvel, promovendo uma mobilidade mais eficiente e sustentável.

Integração territorial e redução de desigualdades sociais

A ampliação do metrô também tem uma forte dimensão social. As periferias parisienses, especialmente ao norte e leste, concentram populações de menor renda, altos índices de desemprego e menor oferta de serviços. O Grand Paris Express pretende diminuir essas desigualdades históricas ao facilitar o acesso a polos de emprego, universidades, hospitais e centros culturais.

Em 2025, a presidente da região Île-de-France, Valérie Pécresse, instituiu uma tarifa única para toda a rede, eliminando cobranças diferenciadas para quem mora mais longe do centro. A ideia é construir uma região sem fronteiras, afirmou Pécresse, onde todos tenham a mesma dignidade, independentemente do endereço.

Infraestrutura como política climática e sustentável

A expansão do metrô é peça central da estratégia ambiental de Paris, sob a liderança da prefeita Anne Hidalgo. A cidade tem adotado políticas agressivas para reduzir o uso do carro, como ampliação de ciclovias e restrição de veículos poluentes. O novo sistema subterrâneo complementa essas medidas, oferecendo uma alternativa rápida, frequente e de baixa emissão de carbono.

O transporte responde por uma parcela significativa das emissões urbanas de gases de efeito estufa. Ao deslocar milhões de passageiros do automóvel para o metrô, que na França é majoritariamente alimentado por eletricidade de origem nuclear e renovável, a cidade reduz sua pegada de carbono. Além disso, as novas estações incorporam padrões de eficiência energética, como uso maximizado de luz natural e sistemas de ventilação inteligentes.

Arquitetura icônica como ferramenta política e cultural

Historicamente, o metrô de Paris é reconhecido por elementos visuais icônicos, como as entradas art nouveau de Hector Guimard. No entanto, as plataformas raramente foram celebradas. O novo ciclo de expansão muda essa lógica, com estações como Saint-Denis Pleyel, na periferia norte, sendo finalista de prêmios internacionais de arquitetura.

Ao investir em estações monumentais também fora das áreas nobres, o poder público envia uma mensagem simbólica clara: a periferia não deve receber infraestrutura de segunda classe. Isso reforça a tradição parisiense de tratar infraestrutura como expressão cultural, como visto na estação Villejuif–Gustave Roussy, que recebeu o Prix Versailles de estação mais bela do mundo.

Reconfiguração da metrópole e impacto econômico

Especialistas em urbanismo apontam que o Grand Paris Express pode alterar profundamente o mapa econômico da região. Ao conectar diretamente polos como aeroportos, centros de pesquisa, hospitais e distritos empresariais, a nova malha tende a redistribuir investimentos e estimular novas centralidades fora do núcleo histórico.

Em vez de uma cidade concentrada e congestionada, o plano desenha uma metrópole policêntrica, mais equilibrada e menos dependente do automóvel. Se bem-sucedido, o projeto consolidará Paris como referência global de mobilidade sustentável, combinando infraestrutura pesada, desenho urbano e política climática.

Na França, onde estilo e serviço público frequentemente caminham juntos, a mensagem é clara: a transição ecológica também pode ser bela, eficiente e inclusiva, transformando não apenas a mobilidade, mas também a vida urbana de milhões de pessoas.