Entre algoritmos e escassez: o dilema hídrico da economia digital no Brasil
Dilema hídrico da economia digital no Brasil

O custo invisível da inteligência artificial

Quanto custa, em água, cada decisão tomada por um algoritmo? A pergunta soa contraintuitiva, pois estamos habituados a pensar a inteligência artificial como parte de um universo imaterial, feito de códigos, nuvens e velocidade. No entanto, por trás da fluidez digital existe uma engrenagem física densa, contínua e exigente. A economia digital, longe de ser etérea, apoia-se em infraestruturas que operam em escala industrial, discretas aos olhos, mas intensivas no uso de recursos naturais. Entre eles, a água ocupa um lugar central e frequentemente negligenciado.

Cada comando processado, cada modelo treinado, cada resposta gerada percorre sistemas que precisam ser resfriados, mantidos e estabilizados. E isso tem um custo invisível, porém crescente. O verdadeiro equívoco do nosso tempo talvez não esteja na tecnologia em si, mas na ilusão de que ela transcende os limites físicos do planeta.

A demanda hídrica dos data centers

A expansão global dos data centers, pilares invisíveis da nova economia, impõe uma demanda crescente por recursos naturais. Essas instalações, responsáveis por processar e armazenar volumes massivos de dados, dependem de sistemas de resfriamento que consomem quantidades expressivas de água. Projeções do Houston Advanced Research Center indicam que, até o fim da década, apenas o estado do Texas poderá demandar mais de 600 bilhões de litros de água por ano para sustentar essa infraestrutura. Trata-se de uma escala que desloca o debate tecnológico para o campo da geopolítica dos recursos.

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O paradoxo é evidente e desconfortável: enquanto algoritmos prometem eficiência ilimitada, os sistemas que os sustentam operam sob restrições físicas rígidas. A inteligência artificial pode escalar exponencialmente; a disponibilidade hídrica, não. Essa assimetria cria uma tensão estrutural entre inovação e sustentabilidade que ainda é subestimada nos debates públicos e corporativos.

Água como variável crítica na competitividade digital

Mais do que um detalhe técnico, trata-se de uma questão econômica central. A água, historicamente tratada como insumo abundante ou de baixo custo, emerge como variável crítica na equação da competitividade digital. Regiões capazes de oferecer segurança hídrica passam a deter uma vantagem comparativa relevante na atração de investimentos em tecnologia. Mas essa vantagem é frágil e, frequentemente, ilusória.

O Brasil ilustra com precisão esse dilema. Dotado de uma das maiores reservas de água doce do planeta e de uma matriz energética relativamente limpa, o país reúne condições naturais que o posicionam como candidato estratégico para a expansão de data centers. Soma-se a isso sua localização geográfica, favorável à conectividade regional e intercontinental. Em teoria, um cenário promissor.

Na prática, contudo, a equação se complica. Infraestruturas digitais são intensivas em capital e exigem horizontes longos de retorno. Em ambientes marcados por instabilidade fiscal e taxas de juros persistentemente elevadas, o custo do capital torna-se proibitivo. O resultado é um desalinhamento entre potencial natural e capacidade de execução econômica. Sem previsibilidade macroeconômica, a abundância de recursos não se traduz automaticamente em investimento.

Segurança jurídica e governança hídrica

Há ainda uma dimensão institucional que transcende indicadores financeiros. Investidores globais não buscam apenas recursos — buscam segurança jurídica. Projetos de infraestrutura, especialmente em setores regulados, dependem de estabilidade normativa e coerência regulatória. Instituições sólidas não são apenas um pilar democrático; são, de forma crescente, um ativo econômico tangível. A ausência dessa previsibilidade eleva o risco percebido e afasta capital de longo prazo.

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Esse quadro torna-se ainda mais paradoxal quando confrontado com a realidade interna do país. Apesar de sua riqueza hídrica, o Brasil convive com déficits estruturais no acesso ao saneamento básico. Milhões de pessoas ainda vivem sem acesso regular à água tratada ou à coleta de esgoto. A coexistência de abundância natural e escassez social revela uma falha profunda de governança — e coloca em xeque a capacidade de sustentar uma expansão tecnológica que exige volumes adicionais de recursos.

A gestão sustentável dos recursos comuns

A contradição, no entanto, não é exclusivamente brasileira. Em escala global, a pressão sobre os recursos hídricos intensifica-se sob o impacto combinado das mudanças climáticas, da urbanização acelerada e da crescente demanda industrial. A economia digital, longe de aliviar essa pressão, tende a ampliá-la — ainda que de forma menos visível do que setores tradicionais.

Nesse contexto, a reflexão proposta pela economista Elinor Ostrom permanece notavelmente atual: a gestão sustentável de recursos comuns depende de arranjos institucionais capazes de alinhar incentivos entre Estado, mercado e sociedade. A água, como ativo estratégico da era digital, exige exatamente esse tipo de governança sofisticada.

A resposta não está em frear a inovação, mas em redefinir seus alicerces. Tornar a infraestrutura digital mais eficiente no uso de água e energia, ampliar o reuso e internalizar seus custos ambientais deixou de ser uma escolha. É uma exigência econômica. Afinal, nenhuma revolução tecnológica foi imaterial; a diferença agora é que os limites do planeta deixaram de ser abstração e passaram a impor restrições concretas.

A civilização digital avança em velocidade exponencial, mas sustenta-se sobre bases essencialmente físicas: água, energia e território. Ignorar essa equação não a resolve, apenas adia seus efeitos, tornando-os mais severos e inevitáveis. A pergunta inicial, portanto, não é retórica. Ela antecipa uma escolha concreta: queremos uma economia digital que reproduza as assimetrias e pressões do passado, ou uma que seja capaz de reconciliar inovação com limites naturais? A resposta, como a própria água, não é infinita.

Rodrigo de Pinho Bertoccelli é Presidente do Centro de Estudos em Integridade e Desenvolvimento – CEID, do Instituto Não Aceito Corrupção, Conselheiro Superior no INAC, professor, advogado e sócio do Giamundo Neto Advogados. Este artigo é uma colaboração do Instituto Não Aceito Corrupção (INAC) com VEJA.