Proposta de nova unidade de conservação visa proteger Fernando de Noronha e corredores ecológicos marinhos
O coordenador do Projeto Golfinho Rotador, José Martins, apresentará nesta quarta-feira (25) uma proposta ambiciosa para a criação de uma nova unidade de conservação que protegerá Fernando de Noronha e áreas marinhas adjacentes. A iniciativa será debatida durante a 15ª Conferência das Partes da Convenção sobre Espécies Migratórias (COP15), que está sendo realizada em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, reunindo representantes de 133 países para discutir estratégias globais de proteção da biodiversidade.
Integração de áreas marinhas ao longo da costa nordestina
A proposta prevê a integração de áreas que se estendem desde o litoral do Ceará até o Rio Grande do Norte, abrangendo aproximadamente 1,3 mil quilômetros da margem equatorial brasileira. Embora a nova unidade se estenda por centenas de quilômetros, apenas dois pontos emergem acima da superfície da água: o icônico arquipélago de Fernando de Noronha e o Atol das Rocas. Já a cadeia Norte Brasileira, localizada mais ao norte, permanece completamente submersa.
José Martins enfatizou a importância crucial da conectividade entre áreas protegidas: "Não basta proteger apenas os destinos finais. As espécies migratórias dependem fundamentalmente de um oceano conectado. Precisamos garantir corredores ecológicos que permitam deslocamento seguro, reprodução e adaptação às mudanças climáticas que afetam nossos ecossistemas marinhos."
Proteção de ecossistemas ricos e espécies migratórias
Fernando de Noronha abriga um ecossistema excepcionalmente rico, com presença marcante de aves marinhas, tartarugas e golfinhos-rotadores, que dão nome ao projeto. A nova unidade de conservação tem como objetivo integrar os montes submarinos das cadeias de Fernando de Noronha e da cadeia Norte, formações geológicas que funcionam como verdadeiras montanhas submersas no Atlântico tropical.
Essas estruturas submarinas desempenham papel essencial como áreas de abrigo e pontos de conexão para a biodiversidade marinha. Segundo Martins, a proposta transcende a proteção de áreas isoladas, incorporando ativamente a conservação das rotas migratórias e dos pontos de conexão entre diferentes habitats marinhos.
"É uma área estratégica para diversas espécies que utilizam esses ambientes para nascer, se reproduzir e se alimentar. A proteção garantiria a conexão necessária para baleias, golfinhos, aves marinhas, tartarugas, raias, tubarões, corais e muitos outros animais marinhos", explicou o pesquisador.
Benefícios ambientais e econômicos da proposta
Além do impacto ambiental significativo, Martins avaliou que a proposta também possui importância econômica considerável. A criação dessas áreas protegidas pode contribuir diretamente para a pesca sustentável, especialmente de peixes e lagostas que dependem desses ambientes marinhos para seu ciclo de vida.
Do ponto de vista técnico, a nova unidade de conservação precisa considerar cuidadosamente:
- A diversidade de habitats presentes nos montes submarinos
- O tamanho adequado para garantir proteção efetiva
- As distâncias entre áreas protegidas
- Níveis de proteção apropriados para assegurar conectividade ecológica em toda a região
Especialistas destacam que áreas marinhas protegidas são importantes, mas só funcionam com máxima eficácia quando estão adequadamente conectadas entre si. A proteção isolada não garante a manutenção dos ciclos ecológicos essenciais. É fundamental conectar essas áreas para que as espécies possam se deslocar livremente e responder adequadamente às mudanças climáticas em curso.
Processo de implementação e reconhecimento internacional
Caso a proposta ganhe adesão durante a COP15, a criação da nova unidade de conservação pode ser oficializada pelo Ministério do Meio Ambiente através de decreto presidencial ou legislação específica. As Unidades de Conservação, especialmente aquelas de proteção integral como a proposta, possuem normas de preservação mais rigorosas comparadas a outras áreas, visando proteger a biodiversidade de forma efetiva.
O Projeto Golfinho Rotador, criado em 1990, realiza pesquisas e ações de conservação dos golfinhos-rotadores e preservação do meio ambiente em Fernando de Noronha, contando com apoio do Programa Petrobras Socioambiental. Recentemente, o projeto conquistou reconhecimento internacional ao vencer o ITB Earth Award, um dos principais prêmios mundiais de turismo sustentável, durante a Internationale Tourismus-Börse (ITB) em Berlim, Alemanha.
José Martins finalizou destacando que a ideia de conectividade ultrapassa fronteiras geográficas e políticas. Por isso, a conservação marinha precisa integrar diferentes territórios, instituições e estratégias de forma coordenada e cooperativa, garantindo a proteção dos corredores ecológicos essenciais para a sobrevivência das espécies migratórias.



