Pirarucu: símbolo amazônico vira espécie invasora em rios brasileiros
Pirarucu: protegido na Amazônia, invasor em outros rios

O paradoxo do pirarucu: protegido na Amazônia, invasor em outros rios brasileiros

O pirarucu (Arapaima gigas), reconhecido como o maior peixe de escamas de água doce do planeta, representa um símbolo icônico da biodiversidade amazônica. Em sua região de origem, na Amazônia, a espécie enfrenta sérios riscos de extinção local, sendo alvo de diversas políticas de conservação e manejo sustentável por comunidades tradicionais. No entanto, esse mesmo animal, quando introduzido em ecossistemas aquáticos fora de seu habitat natural, transforma-se em uma ameaça ambiental significativa, classificada como espécie invasora por órgãos ambientais em diferentes rios do Brasil.

Um caso emblemático: os 20 pirarucus do lago da Granja do Torto

O episódio envolvendo vinte exemplares de pirarucu no lago da Granja do Torto, residência oficial da Presidência da República em Brasília, ilustra vividamente esse paradoxo ambiental. Durante um jantar com deputados, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva mencionou a necessidade de cozinhar os peixes, pois estavam matando outros animais do lago. Essa situação evidencia como uma espécie pode ser simultaneamente protegida em uma parte do território nacional e considerada uma grave ameaça em outra, dependendo do contexto ecológico.

A expansão humana como vetor de invasão

O avanço do pirarucu para áreas onde não existia naturalmente não ocorreu por processos migratórios espontâneos, mas sim por ação humana direta. Pesquisas históricas indicam que exemplares da espécie foram retirados da região de Iquitos, no Peru, durante a década de 1970, e transportados para criadouros conservacionistas no sudeste do Brasil. A partir de escapes acidentais desses criadouros – e, posteriormente, de pisciculturas alagadas durante cheias históricas – o peixe disseminou-se pela bacia do rio Madre de Dios, alcançou território boliviano e, décadas depois, invadiu rios do Norte do Brasil.

Um estudo abrangente realizado pelo Laboratório de Ecologia e Conservação da Universidade Federal do Paraná (UFPR), divulgado em 2023, aponta que o pirarucu foi introduzido em impressionantes 230 localidades distintas em todo o país. Jean Vitule, pesquisador da UFPR, compara esse processo à introdução de um predador de grande porte em um ambiente que nunca conviveu com ele, destacando que as espécies nativas não reconhecem imediatamente o invasor como predador, o que amplifica o impacto inicial da predação e pode levar à extinção local de presas.

Impactos ecológicos devastadores em Rondônia

No rio Madeira, em Rondônia, o pirarucu é nativo apenas no trecho abaixo da antiga cachoeira de Teotônio, próximo a Porto Velho. Acima da barragem da usina de Santo Antônio, a espécie não ocorria naturalmente. Ao se estabelecer e proliferar nessa região, passou a ser oficialmente classificada como invasora. Levantamentos realizados na Reserva Extrativista do Rio Cautário, afluente do Madeira, identificaram centenas de indivíduos e uma taxa de reprodução estimada em centenas de milhares de filhotes por ano.

Carolina Doria, doutora em Desenvolvimento Sustentável pela Universidade Federal de Rondônia (Unir), explica que o pirarucu, ocupando o topo da cadeia alimentar, atua como um superpredador em ambientes onde os peixes locais não evoluíram com sua presença. O impacto ambiental ocorre porque o pirarucu compete por alimento e também ataca outros predadores naturais dos rios, afirma a pesquisadora. Essa dinâmica tem sido associada à diminuição alarmante de espécies nativas como jatuarana, pacu e jaraqui, alterando profundamente toda a estrutura do ecossistema aquático.

Casos em outras regiões: o exemplo do Espírito Santo

A problemática não se restringe à região Norte. No Espírito Santo, a captura de um pirarucu de 65 quilos em uma lagoa de Linhares chamou a atenção para a presença da espécie fora de seu habitat natural. João Luiz Gasparini, biólogo que atua no monitoramento da atividade pesqueira na Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), esclarece que o pirarucu é um peixe tipicamente amazônico e não integra a fauna nativa capixaba.

Gasparini destaca ainda que o pirarucu possui características biológicas que facilitam sua adaptação em ambientes alienígenas, como a capacidade de respirar ar atmosférico e sobreviver em águas com baixos teores de oxigênio. Essas vantagens aumentam seu potencial invasor e complicam sobremaneira os esforços de controle populacional em locais onde não existem predadores naturais para regular sua população.

Estratégias de manejo e adaptação legislativa

Diante dos impactos ambientais documentados, órgãos ambientais de Rondônia começaram a implementar estratégias específicas de manejo. Na Reserva Extrativista do Rio Cautário, equipes da Secretaria de Desenvolvimento Ambiental (Sedam), do ICMBio e de comunidades extrativistas realizam contagens periódicas de pirarucus para mapear a distribuição da espécie invasora e avaliar a eficácia das medidas de controle. Dados preliminares já indicam uma redução no número de indivíduos em áreas onde a pesca foi liberada como instrumento de manejo ambiental.

A própria legislação precisou ser adaptada para enfrentar esse paradoxo. Enquanto a pesca do pirarucu permanece rigorosamente proibida em trechos onde a espécie é nativa e protegida por lei, em áreas onde ela é considerada invasora – como partes da bacia do rio Madeira em Rondônia – a captura foi autorizada como estratégia de controle populacional. Carolina Doria ressalta que essa diferenciação normativa foi resultado de anos de estudos científicos e diálogo constante com órgãos ambientais, visando deixar claro que proteger a espécie em seu habitat natural não significa permitir sua expansão descontrolada em outros ecossistemas.

Um dilema central da conservação ambiental no Brasil

O caso do pirarucu expõe um dos dilemas mais complexos da conservação ambiental contemporânea no Brasil: a proteção de uma espécie não pode ser dissociada do contexto ecológico específico em que ela está inserida. Um peixe que é símbolo da Amazônia e vítima da degradação ambiental em seu berço natural pode, paradoxalmente, transformar-se em um agente de desequilíbrio quando introduzido artificialmente em rios, lagoas e açudes de outras bacias hidrográficas.

Esse cenário demanda uma abordagem de gestão ambiental nuanceada e baseada em evidências científicas, que reconheça a dualidade de status da espécie e implemente políticas diferenciadas conforme a realidade de cada ecossistema. A história do pirarucu serve como um alerta contundente sobre as consequências imprevistas da introdução de espécies e sobre a necessidade de um olhar integrado para a conservação da biodiversidade brasileira.