Relatório da ONU alerta: peixes migradores de água doce têm queda de 81% desde 1970
Peixes migradores de água doce caem 81% desde 1970, alerta ONU

Relatório da ONU revela crise alarmante entre peixes migradores de água doce

Uma nova avaliação global lançada nesta terça-feira (24) durante a COP15 da Convenção sobre Espécies Migratórias (CMS) da ONU aponta que algumas das migrações de animais mais longas e importantes do planeta, que acontecem embaixo d'água, estão entrando em colapso rapidamente. O encontro ocorre em Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, reunindo 132 países e a União Europeia com o objetivo de proteger animais que cruzam fronteiras internacionais ao longo de seus ciclos de vida.

Queda drástica nas populações desde 1970

O relatório estima que as populações de peixes migradores de água doce caíram cerca de 81% desde 1970, tornando esse grupo um dos mais ameaçados do planeta. O documento identificou 325 espécies que precisam de ação coordenada entre países para sua conservação, além das 24 que já estavam listadas pela convenção. Quase todas (97%) as espécies de peixes migradores já listadas pela CMS estão ameaçadas de extinção.

"Esta avaliação mostra que os peixes migradores de água doce estão em sérios apuros e que protegê-los exigirá que os países trabalhem juntos para manter os rios conectados, produtivos e cheios de vida", disse Zeb Hogan, biólogo e autor principal do relatório.

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Uma crise escondida sob a superfície

Segundo a ONU, o relatório é a análise mais abrangente já produzida sobre o tema, elaborada por especialistas da CMS com base em avaliações da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) de quase 15 mil espécies de peixes de água doce. O estudo detalha como o modo de vida dessas espécies as torna especialmente vulneráveis.

Muitos peixes migradores dependem de corredores fluviais longos e contínuos, que conectam áreas de reprodução, alimentação e berçários em planícies de inundação, muitas vezes atravessando diferentes países. Quando barragens, alterações no fluxo dos rios ou a degradação do habitat interrompem esses caminhos, as populações entram em queda acelerada.

Justamente por isso, a avaliação destaca que populações de animais que vivem em ecossistemas de água doce estão diminuindo mais rapidamente do que populações de animais terrestres e marinhos.

"Os rios não reconhecem fronteiras — e os peixes que dependem deles também não. A crise que se desenrola sob nossas vias fluviais é muito mais grave do que a maioria das pessoas percebe, e estamos ficando sem tempo", alerta Michele Thieme, vice-presidente do WWF-EUA e uma das autoras do documento.

Amazonas e La Plata-Paraná sob pressão

O relatório também chama atenção para a situação de dois dos principais sistemas fluviais da América do Sul: a bacia Amazônica e o sistema La Plata-Paraná, onde a pressão sobre peixes migradores tem aumentado nos últimos anos.

Na Amazônia, bioma considerado um dos últimos grandes refúgios dessas espécies, o avanço de barragens, a expansão de atividades econômicas e a degradação dos rios já aparecem como ameaças crescentes. Um estudo ligado ao relatório identificou 20 espécies migradoras que podem entrar em uma lista internacional de proteção, voltada a animais que precisam de ações conjuntas entre países para não desaparecer.

Muitas dessas espécies têm peso direto na economia da região. Na Amazônia, peixes migradores de longa distância respondem por cerca de 93% da pesca e movimentam aproximadamente US$ 436 milhões por ano. Entre eles está a dourada (Brachyplatystoma rousseauxii), que realiza uma das maiores migrações em água doce já registradas, cerca de 11 mil quilômetros, das nascentes andinas até a foz do Amazonas.

Esse tipo de deslocamento depende de rios livres e conectados, condição cada vez mais rara diante da fragmentação dos cursos d’água. A mesma dependência aparece em outras espécies, como a piraíba (Brachyplatystoma filamentosum), presente na Amazônia e no Orinoco, e que também sofre com a interrupção desses corredores naturais.

Já na bacia do La Plata, o cenário é semelhante. O relatório aponta que espécies como o surubim (Pseudoplatystoma corruscans) enfrentam pressões combinadas de barragens, alterações no fluxo dos rios e aumento da pesca, o que também tem reduzido suas populações.

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Espécies em risco no mundo

O relatório lista ainda 325 espécies que podem entrar em esquemas de proteção internacional. A maior parte está na Ásia, seguida pela América do Sul, Europa e África. Entre os casos mais críticos fora da América do Sul estão:

  • Esturjão-beluga, do Danúbio e do Mar Cáspio
  • Bagre-gigante do Mekong
  • Enguia-europeia, já considerada criticamente ameaçada

Para tentar conter esse declínio, o documento defende medidas como:

  1. Proteção de rotas de migração
  2. Gestão conjunta da pesca
  3. Ações coordenadas entre países que compartilham os mesmos rios

Segundo a CMS, esse tipo de cooperação é essencial: mais de 250 rios e lagos no mundo cruzam fronteiras, e quase metade do planeta está em bacias hidrográficas compartilhadas.