A descoberta de uma nova espécie de anfíbio minúsculo na Serra do Quiriri, entre Santa Catarina e Paraná, está reacendendo debates cruciais sobre a criação de um parque nacional na região. Batizado de Brachycephalus lulai em referência ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o sapinho que cabe na ponta de um lápis é a 45ª espécie descrita de um gênero exclusivo da Mata Atlântica brasileira.
Uma década para encontrar o sapinho
A descrição científica do Brachycephalus lulai, publicada na revista "Plos One", foi fruto de quase dez anos de trabalho. Biólogos enfrentaram expedições por trilhas íngremes e a dificuldade de localizar os animais, que medem entre 8,9 mm e 13,4 mm e se escondem na serrapilheira úmida das florestas de altitude.
"Foram nove anos incríveis", relatou o biólogo Marcos Bornschein. A identificação precisou de análises moleculares e do canto do animal, já que a coloração é similar entre as espécies da família. O pesquisador Luiz Fernando Ribeiro explica que o gênero Brachycephalus, registrado há mais de 200 anos, foi praticamente esquecido pela ciência por cerca de 150 anos.
"Passaram-se quase 150 anos para se descobrir a segunda espécie", lembra Ribeiro. Hoje, com 45 espécies conhecidas, fica claro que o gênero é muito biodiverso. "Na verdade, o gênero é tão biodiverso quanto outros, só que ninguém tinha pesquisado", completa.
Homenagem presidencial e política ambiental
A escolha do nome científico Brachycephalus lulai não foi aleatória. Segundo os pesquisadores, é um reconhecimento à política de estabelecimento de áreas protegidas federais durante os mandatos do presidente Lula.
"Nunca nenhum outro governo criou tantas unidades de conservação quanto nos mandatos dele", afirmou Luiz Fernando Ribeiro. De acordo com dados do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), foram estabelecidos 25 milhões de hectares em reservas ecológicas no período.
O sapinho apresenta adaptações extremas à vida nas montanhas, entre 700 e 1.800 metros de altitude:
- Desenvolvimento direto (sem fase de girino)
- Alta resistência ao frio
- Incapacidade de nadar
- Número reduzido de dedos
O debate pelo parque nacional
A descoberta coloca mais lenha na fogueira de uma discussão antiga: a criação de um parque nacional que proteja as florestas nebulares e campos de altitude das serras do Quiriri, em Santa Catarina, e do Araçatuba, no Paraná. A proposta é defendida por cientistas e ONGs, como a Mater Natura, que ajudou a identificar quatro em cada dez espécies do gênero Brachycephalus.
"Qualquer perturbação maior no ecossistema pode comprometer toda a população de uma vez", alertou Ribeiro, destacando a vulnerabilidade desses animais a ações humanas como desmatamento e degradação das serras.
No entanto, o parque não é consenso. Enquanto alguns parlamentares garantem que o traçado não afeta propriedades produtivas, outros criticam as restrições ao uso da terra e cobram maior participação social nos debates.
O presidente da Mater Natura, Paulo Pizzi, defende uma visão de longo prazo: "Se esses ambientes de montanha desaparecerem, perdemos não apenas espécies, mas também histórias evolutivas que ainda nem compreendemos por completo".
A disputa, portanto, vai além de proteger um sapinho minúsculo ou desenhar linhas em um mapa. Ela envolve a definição de qual modelo de proteção ambiental e de desenvolvimento prevalecerá nessas importantes montanhas do sul do Brasil.