Mata do Convento da Penha em Vila Velha revela santuário ecológico em meio à fé
Em meio à movimentação de milhares de fiéis durante a Festa da Penha, um espetáculo natural paralelo chama atenção no Convento da Penha, em Vila Velha, Espírito Santo. Mais de 50 hectares de Mata Atlântica preservada formam um refúgio verde em plena área urbana da Grande Vitória, abrigando uma diversidade impressionante de plantas e animais que coexistem harmoniosamente com a devoção religiosa.
Um oásis verde no coração urbano
Este santuário natural se destaca mesmo à distância, seja da baía de Vitória ou do alto da Terceira Ponte, que conecta a capital a Vila Velha. A mata serve como moldura para a experiência espiritual dos visitantes, oferecendo trilhas e áreas de vegetação densa onde espécies como saguis, bichos-preguiça, gambás, esquilos e centenas de aves encontram abrigo seguro.
Em 2026, a conexão entre fé e meio ambiente ganhou força adicional com o tema da Festa da Penha, que recorda os 800 anos da morte de São Francisco de Assis, patrono da Ecologia e padroeiro dos animais. Esta proposta reforça a mensagem de que espiritualidade e criaturas caminham juntas, uma percepção que se torna concreta dentro dos limites do convento.
A visão franciscana da natureza como irmã
Para o frei Vanderlei da Silva Neves, a convivência pacífica entre animais e visitantes no mesmo espaço traduz um dos principais ensinamentos franciscanos. "São Francisco nos ensina a Ecologia integral", explicou o religioso. "Ele não via a natureza como recurso, mas como irmãos e irmãs, criaturas do mesmo Deus. Cuidar da criação também é uma forma de devoção".
Esta visão espiritualizada da natureza como espelho da bondade divina ressoa profundamente entre aqueles que frequentam o local por diferentes motivos. Para o frei, São Francisco chamava o sol, a lua, o fogo, a terra e os animais de irmãos, oferecendo um modelo de harmonia com todos os seres baseado em cuidado e zelo.
Observadores de aves descobrem paraíso ornitológico
Há 11 anos, o servidor público Régis Filotti participa do Clube de Observadores de Aves do Espírito Santo, que atualmente reúne cerca de 120 integrantes em todo o estado. "A mata do convento é um ponto muito bacana de observação", contou Régis, "ainda mais por ser tão conservada no meio da cidade. Abriga inúmeras aves, inclusive algumas raras, como o gavião-pombo".
O entusiasta já fez dezenas de registros de animais na mata do Convento da Penha e indica o local para observadores de todo o Brasil. Para ele, que é devoto de Nossa Senhora da Penha, a fé e a natureza se misturam naturalmente em suas visitas. "Hoje, eu vou ao Convento tanto para observar os animais quanto para fazer minhas orações. Uma coisa acaba levando à outra", revelou.
Curiosidades da mata viva do convento
- Mais de 50 hectares de Mata Atlântica preservada
- Centenas de espécies de fauna e flora já registradas
- Aves raras, como o gavião-pombo, atraem observadores de todo o país
- Fauna diversa, com espécies como saguis, gambás, esquilos, preguiças e urubus
- Flora nativa, com exemplares de jequitibá-rosa, ipê-amarelo, jacarandá e pau-brasil
- Insetos polinizadores essenciais para o equilíbrio ecológico
- Reflorestamento iniciado na década de 1970 recuperou a área significativamente
Memória, afeto e preservação ambiental
Para o professor e engenheiro florestal Luiz Fernando Schettino, a relação com a natureza no Convento da Penha transcende a paisagem, adquirindo significado pessoal e espiritual. Admirador de São Francisco desde uma visita ao túmulo do santo na Itália em 1999, Schettino acompanha a diversidade da fauna local há mais de duas décadas.
Em 2020, o professor participou do plantio de mudas na área pela primeira vez e, desde então, voltou outras vezes para repetir a ação, sempre com autorização da Congregação Franciscana. "Todas as vezes, foram mudas de jequitibá, principalmente da espécie rosa e algumas da branca", disse Schettino. "O jequitibá é a árvore símbolo do Espírito Santo. Plantar essas mudas aqui foi a realização de um sonho pessoal".
Corredor ecológico estratégico
Além do simbolismo espiritual, a mata do convento desempenha função ambiental estratégica. Juntamente com as áreas do Morro do Moreno, do Parque da Fonte Grande e do Mestre Álvaro, forma um importante corredor ecológico que ajuda a regular o clima na Grande Vitória, melhorando a qualidade do ar e mantendo o equilíbrio ambiental.
Segundo o professor, a floresta reúne árvores típicas da Mata Atlântica, como jequitibá-rosa, ipê-amarelo, jacarandá e pau-brasil, além de espécies que contribuem para a regeneração natural da mata, como embaúbas e ingás. Entre os animais observados, ele destaca pequenos mamíferos, roedores, aves, répteis, insetos, anfíbios e cobras, incluindo jararacas, que desempenham papel fundamental no equilíbrio ecológico.
Patrimônio histórico, ambiental e cultural único
"A partir de 1970 começou a preocupação com o reflorestamento do morro", pontuou Schettino. "Hoje, o que a gente vê é uma vegetação saudável, que também atrai diversos animais, que encontram ali abrigo, alimento e condições adequadas para viver".
Para o engenheiro florestal, essa presença da natureza faz do Convento da Penha um ponto turístico singular. "Isso tudo é a coisa mais linda, aqui no estado não temos um ponto turístico igual, que é um patrimônio histórico, mas também ambiental e cultural", confidenciou Schettino, expressando o desejo de que sua filha um dia possa visitar o local e lembrar dele através das árvores que plantou.
A maior festa religiosa capixaba
A Festa da Penha é a maior celebração religiosa do Espírito Santo e a terceira maior festa mariana do Brasil. Em 2026, ela aconteceu entre os dias 5 e 13 de abril, reunindo missas, romarias e eventos culturais que atraíram milhares de fiéis de diversas regiões. Ao todo, foram esperadas mais de 2,5 milhões de pessoas durante os nove dias de programação.
Neste cenário de devoção massiva, a mata preservada do convento oferece um contraponto silencioso e igualmente poderoso, lembrando aos visitantes que a espiritualidade verdadeiramente franciscana abraça toda a criação como expressão divina, unindo fé, natureza e comunidade em uma experiência transformadora que transcende o momento religioso para tocar na essência da relação humana com o mundo natural.



