Facções criminosas transformam crimes ambientais em nova fronteira de poder na Amazônia
Facções usam crimes ambientais como nova fronteira de poder na Amazônia

Facções criminosas transformam crimes ambientais em nova fronteira de poder na Amazônia

O ouro extraído ilegalmente dos rios no sul do Amazonas não serve apenas para enriquecer garimpeiros. Esse e outros crimes ambientais, como extração clandestina de madeira, grilagem de terras e tráfico de animais silvestres, estão sendo utilizados por facções criminosas como fonte estratégica de financiamento, lavagem de dinheiro e domínio territorial na região amazônica.

Mudança no perfil do crime organizado

Dados do estudo Cartografias da Violência na Amazônia 2025, realizado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, indicam uma transformação significativa na atuação de organizações criminosas como o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC). Antes focadas principalmente nas rotas do tráfico de drogas, essas facções passaram a tratar crimes ambientais como parte fundamental de sua engrenagem de poder.

Pelo menos três municípios do Amazonas já registram atuação de facções com foco específico em crimes ambientais: Humaitá, Lábrea e Manicoré. A presença dessas organizações intensifica conflitos socioambientais e coloca comunidades tradicionais e povos indígenas em situação de extrema vulnerabilidade.

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Financiamento e lavagem de dinheiro

Segundo Ariadne Natal, pesquisadora sênior do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, as facções chegaram à Amazônia com interesse estratégico em controlar a cadeia do tráfico de drogas diretamente da produção. "A partir do momento em que se inserem na economia ilegal local, passam a explorar outras possibilidades, como o garimpo, que permite reinvestir e lavar o dinheiro obtido com o tráfico", explica a especialista.

O enfraquecimento das instituições de fiscalização ambiental e de proteção indígena, especialmente a partir de 2018, criou condições favoráveis para que essas organizações expandissem suas operações para os crimes ambientais. Além da participação direta na mineração e extração de madeira, as facções também cobram taxas sobre atividades ilegais exercidas em seus territórios de domínio.

Sistema híbrido de criminalidade

De acordo com o coronel Francisco Xavier, membro do Instituto Brasileiro de Segurança Pública, a expansão do CV e do PCC no estado busca fortalecer três pontos principais das organizações:

  1. Expansão das atividades criminosas para além do narcotráfico
  2. Uso do garimpo como esconderijo para criminosos foragidos da Justiça
  3. Compartilhamento do sistema logístico do garimpo ilegal pelo narcotráfico

Nesse "sistema híbrido", drogas, ouro, madeira e armas circulam pelas mesmas rotas, utilizando a mesma infraestrutura. "Há o direcionamento de 'investimentos' do crime para empreendimentos dedicados a explorar a pesca predatória e a extração de madeira", afirma Xavier, destacando a baixa capacidade das instituições de segurança em controlar as vastas áreas onde ocorre essa exploração ambiental.

Consequências para comunidades locais

A incapacidade do Estado em retomar o controle do território traz consequências sociais graves para comunidades indígenas e ribeirinhas. Praticamente todas as terras indígenas amazônicas registram atuação criminosa na exploração do garimpo ilegal, que frequentemente utiliza mercúrio na obtenção do metal precioso, contaminando rios e peixes consumidos por essas populações.

Ariadne Natal destaca que o medo imposto pelas facções representa uma nova forma de vulnerabilizar as populações locais. "Essas organizações acabam se inserindo na vida das comunidades de forma muito negativa. Há casos de violência letal contra lideranças e um terror psicológico que leva até à migração forçada", relata a pesquisadora.

Ouro ilegal como moeda internacional

Investigações revelam que o ouro ilegal extraído dos garimpos tornou-se a principal moeda utilizada por facções criminosas para financiar a compra de pasta-base de cocaína no Peru e na Colômbia. O narcotráfico está diretamente ligado a um portfólio de crimes ambientais que servem tanto para gerar recursos quanto para lavar dinheiro.

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Para o delegado da Polícia Federal Rafael Grummt, chefe da Delegacia do Meio Ambiente do Amazonas, o enfrentamento ao crime organizado na Amazônia precisa ir além das prisões. "Não basta prender indivíduos. É fundamental descapitalizar as facções, rastreando a origem do dinheiro e responsabilizando os destinatários", afirma o delegado.

Disputa territorial entre facções

A guerra pelo controle do tráfico na Amazônia se intensificou desde 2018, quando o Comando Vermelho consolidou o domínio sobre áreas antes controladas pela Família do Norte (FDN). A expansão do CV abriu caminho para um conflito silencioso com o PCC, que tenta avançar sobre as rotas internacionais de entorpecentes que passam pela tríplice fronteira entre Brasil, Colômbia e Peru.

Segundo o historiador Joel Paviotti, alianças entre facções permitiram a dominação da Rota Solimões e a movimentação de milhões de reais mensais. O PCC passou a tentar controlar essa rota estratégica, intensificando confrontos no sistema penitenciário da região norte do país.

O Secretário de Segurança Pública do Amazonas, coronel Vinícius Almeida, garantiu que o Governo do Estado vem reforçando o combate aos crimes ambientais com a Operação Tamoiotatá, focada na exploração de madeira ilegal e queimadas. No entanto, a presença insuficiente do Estado em áreas remotas da Amazônia continua expondo comunidades inteiras às pressões ambientais e à influência crescente das organizações criminosas.