A paisagem das praias de Santos, no litoral de São Paulo, está mudando de forma preocupante. Ano após ano, o mar avança e a faixa de areia disponível para banhistas e comerciantes diminui visivelmente. O fenômeno, que também é registrado em outras regiões do Brasil, é um reflexo direto da ação humana e das mudanças climáticas.
O testemunho de quem vive da praia
O ambulante Tião é uma das testemunhas mais diretas dessa transformação. Com 15 anos de trabalho na orla, ele já foi obrigado a mudar o ponto de sua barraca várias vezes, não por vontade própria, mas porque o mar foi tomando o espaço. Ele atua em uma das praias de Santos que mais perdeu território para as águas. Barreiras submersas instaladas pela prefeitura há oito anos não foram suficientes para recuperar a faixa de areia original, mostrando a complexidade do problema.
As causas do desequilíbrio
Glaucus Farinello, secretário de Meio Ambiente de Santos, vai além do aquecimento global para explicar a situação. Ele enumera uma série de fatores antrópicos: o aumento significativo de embarcações e navios, o aprofundamento do canal do porto e a urbanização desenfreada. "São vários fatores que contribuem para um desequilíbrio da praia. A gente perde muita areia nesse pedaço da praia e ganha muita areia nos demais trechos", afirmou o secretário.
Uma comparação com fotos aéreas antigas evidencia de forma dramática como o território arenoso encolheu ao longo das décadas. A última grande ressaca, ocorrida em julho de 2025, destruiu ainda mais trechos da costa, acelerando o processo de erosão.
Soluções em debate e o alerta dos especialistas
Diante do cenário crítico, a Prefeitura de Santos planeja ações para conter o avanço do mar. A ideia é refazer e ampliar as barreiras artificiais que protegem a orla das ondas mais fortes. Além disso, estuda-se a engorda da praia, técnica que consiste no depósito de grandes volumes de areia para reconstituir a faixa litorânea, similar ao que foi realizado em Balneário Camboriú, em Santa Catarina.
No entanto, especialistas alertam que intervenções puramente estruturais podem não ser a solução mais sustentável. Vinícius Ribau, professor do Instituto do Mar da Unifesp, defende um modelo de ocupação que respeite o ecossistema natural. "Aquela primeira vegetação que aparece na praia tem um papel fundamental no ecossistema. [...] o modelo bom de ocupação é deixar uma faixa de vegetação aí, em torno de 30 m a 40m de largura", explica. Essa faixa de restinga atua como um amortecedor natural contra a força do mar.
Um problema nacional
A situação de Santos não é isolada. Outras regiões do Brasil enfrentam desafios semelhantes com a força das ressacas:
- Rio de Janeiro: Em São João da Barra, a ressaca de dezembro de 2025 obrigou moradores a abandonarem suas casas na praia do Açu.
- Paraíba: Na cidade de Bahia da Traição, a pouco mais de 80 km de João Pessoa, casas à beira-mar também tiveram que ser desocupadas devido à fúria do mar.
O fenômeno coloca em evidência a vulnerabilidade do litoral brasileiro diante da combinação perigosa entre eventos climáticos extremos, potencializados pelo aquecimento global, e a pressão da ocupação humana desordenada. O caso de Santos serve como um alerta para a necessidade de um planejamento costeiro mais integrado e respeitoso com o meio ambiente.