O ano de 2025 registrou uma redução nas taxas de desmatamento nos dois maiores biomas brasileiros, a Amazônia e o Cerrado. No entanto, os dados positivos em termos percentuais escondem uma realidade complexa, onde extensas áreas continuam sob ameaça constante da expansão agrícola e de eventos climáticos extremos.
Queda nos números oficiais
Segundo informações preliminares do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), os alertas de desmatamento caíram aproximadamente 8,7% na Amazônia Legal e 9,2% no Cerrado em 2025, na comparação com o ano anterior. O sistema Deter, que monitora alterações na cobertura vegetal em tempo real, apontou 3.817 km² sob alerta na Amazônia (ante 4.183 km² em 2024) e 5.357 km² no Cerrado.
Os dados consolidados pelo sistema Prodes, mais precisos por usar imagens de alta resolução, confirmam a tendência de queda. No período entre agosto de 2024 e julho de 2025, o desmatamento na Amazônia foi de 5.796 km², uma redução de 11% em relação ao ciclo anterior, marcando o terceiro menor índice desde 1988. No Cerrado, a taxa estimada foi de 7.235,27 km², com queda de 12%.
Pressões persistentes e alertas dos especialistas
Apesar da melhora estatística, especialistas e organizações ambientais fazem um alerta importante: as áreas desmatadas continuam sendo enormes. A Amazônia, por exemplo, já perdeu nas últimas décadas um território equivalente ao da França. O bioma pode se aproximar de um ponto de não retorno caso as pressões não sejam contidas.
Um dos principais motores da destruição permanece sendo o agronegócio. No Cerrado, a expansão das fronteiras agrícolas, especialmente na região conhecida como Matopiba (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia), foi responsável por mais de 77% do desmatamento do bioma no último ciclo monitorado.
Além disso, indicadores complementares mostram nuances preocupantes. Em certos recortes temporais de 2025, o sistema Deter chegou a registrar um aumento de 4% na área sob alerta na Amazônia, sinalizando que a tendência de queda não é linear. Incêndios florestais, muitos criminosos, e secas severas são fatores que continuam a desafiar a conservação.
Resposta governamental e desafios futuros
O governo federal atribui a redução consecutiva do desmatamento a um reforço nas ações de fiscalização e controle ambiental. Foram citados o aumento da cooperação entre Ibama, ICMBio e Polícia Federal, maior presença de brigadistas em campo, aportes financeiros ao Fundo Amazônia e a evolução dos sistemas integrados de monitoramento.
Politicamente, a queda tem sido usada como evidência de que a agenda ambiental é uma prioridade, alinhada com o compromisso de atingir o desmatamento zero até 2030, meta reiterada em fóruns internacionais como a COP30.
Contudo, pesquisadores e ONGs ressaltam que pressões estruturais – como a grilagem de terras, conflitos fundiários e a dificuldade de fiscalização em regiões remotas – podem colocar em risco os ganhos recentes. Organizações como o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM) defendem que mudanças no modelo de desenvolvimento econômico são essenciais para consolidar a tendência positiva e evitar retrocessos.
A análise dos dados exige cautela, pois envolvem diferentes sistemas de monitoramento (Deter e Prodes) e ciclos de medição. A comunidade científica também destaca o impacto crescente de eventos climáticos extremos e o problema da degradação florestal, que nem sempre é contabilizada como desmatamento de corte raso, mas representa uma perda ambiental significativa.