Uma pesquisa inédita revelou que as cidades abrigam quase 2 mil espécies de abelhas, desafiando a ideia de que áreas urbanas são desertos biológicos. O estudo, conduzido por 11 pesquisadores de universidades mineiras, foi publicado na renomada revista Conservation Biology.
O levantamento global
A equipe, composta por pós-doutores, estudantes de doutorado e professores da UFMG, UFOP e UFU, montou um banco de dados inédito a partir de registros internacionais. Foram encontradas 1.981 espécies diferentes de abelhas em 9.691 registros, o que representa cerca de 10% de toda a biodiversidade conhecida desses insetos, estimada em aproximadamente 20.900 espécies.
Segundo o biólogo João Custódio Fernandes Cardoso, professor da UFU e um dos autores, o estudo surgiu para preencher a lacuna sobre a diversidade e distribuição das abelhas nas cidades. "Enquanto as abelhas são o principal grupo de polinizadores, gerando benefícios para ecossistemas e saúde humana, a urbanização é um importante fator de impacto ambiental", explica.
Distribuição das famílias
O estudo comparou as proporções das sete famílias de abelhas na biodiversidade geral com as observadas nas cidades. A família Apidae, por exemplo, compreende 30% das espécies no total e 35% nas áreas urbanas. Proporções semelhantes foram vistas em Halictidae (22% total, 24% urbano) e Megachilidae (20% total, 19% urbano), indicando que a biodiversidade urbana segue padrões gerais.
Um dado interessante: em regiões não tropicais, 27% das abelhas pertencem à família Apidae, enquanto nos trópicos o valor sobe para 69%. Essa prevalência está relacionada à maior diversidade de recursos florais nos trópicos.
Abelhas solitárias em destaque
Outro dado relevante foi a quantidade de abelhas solitárias registradas nas áreas urbanas, que representam 49,8% das espécies. Elas não vivem em colônias e cada fêmea constrói seu próprio ninho. As abelhas sociais somam 33,8%, as cleptoparasitas 11% e as eusociais (como a Apis mellifera) apenas 4,7%, sendo o grupo menos expressivo nas cidades.
Cidades não são desertos biológicos
O levantamento quebra o mito de que as cidades são desertos biológicos. Vias públicas, praças, parques e reservas fornecem recursos e locais de nidificação para as abelhas. A preservação das áreas verdes urbanas é essencial para a saúde humana, influenciando regulação microclimática, hídrica e qualidade do ar.
Além disso, as abelhas produzem itens de valor econômico e social, como mel, própolis e geleia real. A meliponicultura (criação de abelhas sem ferrão) pode ser praticada de forma terapêutica em ambientes urbanos.
Como ajudar as abelhas
Para garantir a polinização, é preciso cuidar das abelhas. "A princípio, não matar as abelhas já é um grande passo", alerta João Cardoso. Ele explica que muitas abelhas sem ferrão são mortas por falta de informação, além do perigo dos pesticidas. "Estratégias ativas, como conservação de áreas verdes e plantio de espécies que ofereçam recursos florais ou de nidificação, ajudam as abelhas", conclui.



