Crise no setor de energia renovável ameaça R$ 38,8 bilhões em investimentos no Nordeste
Energia renovável: investimentos de R$ 38,8 bi em risco no Nordeste

Crise no setor de energia renovável ameaça R$ 38,8 bilhões em investimentos no Nordeste

Empresas do setor de energia renovável estão considerando migrar do Nordeste, região com condições climáticas favoráveis à geração eólica e solar, para outros locais do Brasil. Essa movimentação pode resultar na suspensão de investimentos próximos a R$ 38,8 bilhões entre 2025 e 2026, segundo cálculos de associações do setor.

Fatores que impulsionam a crise

O cenário se deve a uma série de fatores, incluindo o lento crescimento da demanda por energia e o curtailment (corte forçado na geração). Representantes do setor reclamam de uma recente elevação dos custos de operação, com a perda de vantagens fiscais e o aumento de exigências regulatórias.

Integrantes do governo Lula (PT) ponderam que os benefícios fiscais concedidos no passado para impulsionar essas fontes alternativas não são mais necessários, uma vez que elas já ganharam espaço na matriz energética nacional. Com o mercado consolidado, argumentam que é necessário ajustar a política tributária para evitar desequilíbrios no sistema energético, o que poderia encarecer a conta ao consumidor.

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Procurado por meio de sua assessoria de imprensa desde o último dia 27 de março, o Ministério de Minas e Energia não se manifestou até a publicação deste texto.

Impacto econômico e desaceleração do setor

A maior parte dos empreendimentos de energia renovável está no Nordeste, região abundante em sol e vento. A pedido da reportagem, a Absolar e a Abeólica calcularam o impacto da crise:

  • A Absolar afirmou que, durante 2025, 141 usinas devolveram suas outorgas, somando R$ 18,9 bilhões em investimentos perdidos.
  • Na comparação entre o projetado e o realizado no último ano, houve outros R$ 5,9 bilhões em investimentos frustrados.
  • A Abeólica disse que a desaceleração do crescimento do setor gerou cerca de R$ 14 bilhões em investimentos suspensos.

"Essa crise se agravou principalmente a partir de 2023 e 2024, e o Nordeste, que recebe mais de 95% dos investimentos, está sofrendo. Nós temos inclusive fábricas no Nordeste demitindo e fechando por falta de investimento, de novos projetos", afirma Elbia Gannoum, diretora-executiva da Abeólica.

Migração para outras regiões e desafios regulatórios

A Casa dos Ventos, uma das principais empresas de renováveis do país, admite reduzir investimentos no Nordeste e recalcular sua rota para apostar em projetos em Mato Grosso e no Rio Grande do Sul. Procurada, a empresa informou que investe "tanto no Nordeste quanto em outras geografias".

Mato Grosso do Sul e o Rio Grande do Sul surgem como alternativas, pois, apesar de não terem condições climáticas tão favoráveis quanto as do Nordeste, estão mais próximos dos polos consumidores.

O aumento do custo de geração tem explicação em dois dispositivos aprovados em 2025, na Medida Provisória 1304. Essa medida criou regras para impulsionar o setor de baterias, visando resolver o curtailment, mas também restringiu o acesso ao Reidi (Regime Especial de Incentivos para o Desenvolvimento da Infraestrutura), que dá desconto de impostos a usinas solares e eólicas.

"O texto ocasionou um retrocesso, criando falta de isonomia para a fonte solar frente a outras tecnologias, ao restringir o acesso ao Reidi. Este tipo de requisito e limitação não existe para nenhuma outra fonte no Brasil", afirmou a Absolar.

Outros fatores de pressão e busca por soluções

Outro dispositivo criticado é o repasse dos custos da reserva de capacidade para novos empreendimentos, o que encarece projetos e desestimula investimentos. Além disso, a Aneel aprovou, em 2022, resoluções que aumentam a taxa a ser paga por geradoras de energia distantes dos principais polos consumidores, como Sul e Sudeste.

A Absolar avalia que isso "aumentou os custos de uso da rede para usinas situadas longe dos centros de carga, especialmente no Norte e Nordeste" e "pode deslocar os projetos fotovoltaicos", o que já está acontecendo.

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Em resposta, a Aneel afirmou que "os atos normativos em questão foram resultado de mais de cinco anos de debate, e após aprovação, tiveram seus efeitos e aplicação modulada de forma a trazer previsibilidade e adaptabilidade dos agentes".

Dada a insatisfação do setor, há um projeto na Comissão de Constituição e Justiça do Senado Federal para derrubar essas resoluções. Representantes das renováveis também reclamam da demora do Executivo em realizar leilões de contratação de baterias, que poderiam resolver o problema do curtailment.

"A gente precisa realmente ter uma solução porque, do contrário, vamos perder oportunidade de investir num país que tem uma grande potencialidade diante da transição energética. A situação de fato é preocupante", diz Elbia Gannoum.

Perspectivas futuras e desafios adicionais

Há uma avaliação geral de que a chegada de data centers poderia impulsionar o setor de energia, se abastecidos com renováveis, pois consomem quantidades enormes de eletricidade. No entanto, a criação de um programa nacional para esses empreendimentos está travada no Congresso Nacional.

Enquanto isso, o setor de energia renovável enfrenta um momento crítico, com investimentos bilionários em risco e a necessidade de ajustes regulatórios para manter a competitividade e sustentabilidade da matriz energética brasileira.