Sistema Cantareira enfrenta pior nível em 10 anos após verão com chuvas abaixo da média
Cantareira tem pior nível em 10 anos após verão seco (28.03.2026)

Sistema Cantareira enfrenta pior nível em uma década após verão com chuvas insuficientes

O verão chegou ao fim, mas as precipitações registradas não foram capazes de aliviar a situação crítica do Sistema Cantareira, o principal conjunto de reservatórios responsável pelo abastecimento da capital paulista e região metropolitana. A estação mais chuvosa do ano terminou com o manancial registrando o pior nível dos últimos dez anos para este período, deixando a população em alerta máximo diante da iminência do período seco, que se estende oficialmente de abril a setembro.

Reservatório opera com menos da metade da capacidade

Atualmente, o Sistema Cantareira opera com apenas 44% do seu volume útil, conforme projeções do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) que se concretizaram. As previsões iniciais do ano indicavam que, se as chuvas ficassem dentro da média histórica durante o verão, o sistema alcançaria aproximadamente 40% de sua capacidade. No entanto, o período chuvoso terminou com um déficit pluviométrico de 15% abaixo da média, agravando ainda mais o cenário de escassez.

"Esse é o pior índice que já vimos em 10 anos para um fim de verão. Estamos em um momento crítico, é preciso olhar para isso com essa gravidade", afirma Adriana Cuartas, especialista em hidrologia no Cemaden. A pesquisadora ressalta que o sistema vem enfrentando uma seca constante desde o ano passado, com índices pluviométricos consistentemente abaixo do esperado.

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Impacto direto no abastecimento da população

O estado de São Paulo é abastecido por um conjunto integrado de sete reservatórios, incluindo o Sistema Cantareira, que juntos atendem quase 8 milhões de pessoas. Com o volume atual, a Sabesp já opera em situação de alerta, distribuindo apenas 27 metros cúbicos de água por segundo, contra os 33 m³/s que seriam possíveis em condições normais.

Na prática, essa redução significa:

  • Distribuição diária de aproximadamente 2,33 bilhões de litros de água, em vez dos 2,85 bilhões em condições normais
  • Mais de 500 milhões de litros a menos chegando à população a cada dia
  • Áreas mais altas e periféricas da Grande São Paulo já sofrem com desabastecimento temporário

Cenário preocupante para os próximos meses

Pesquisadores do Cemaden realizaram análises considerando diferentes cenários pluviométricos para os próximos meses. Se o padrão recente de escassez se repetir, o Sistema Cantareira pode cair para cerca de 25% de sua capacidade até setembro, o que acionaria faixas de restrição ainda mais severas.

Nesse cenário extremo, o sistema operaria com apenas 23 metros cúbicos por segundo, distribuindo cerca de 1,9 bilhão de litros diários - quase um bilhão de litros a menos do que o necessário em um único dia para atender adequadamente a população.

Problema estrutural vai além da seca cíclica

Para a especialista Adriana Cuartas, o quadro atual aponta para um problema mais profundo do que um ciclo isolado de estiagem. "A avaliação é de que o sistema já opera sob uma condição próxima de 'seca permanente', o que exige mudanças na forma de gestão e consumo de água", explica a pesquisadora.

Um dos principais pontos críticos identificados é a eficiência da rede de distribuição. Segundo dados do Instituto Trata Brasil, o estado de São Paulo apresenta um índice de perdas na distribuição de 32,66%, o que significa que quase um terço da água tratada se perde antes de chegar efetivamente ao consumidor final.

"A gente não pode olhar apenas para a chuva quando pensamos na gestão do recurso. É preciso pensar o uso, as perdas no sistema, melhorar a eficiência e ter um plano real para essa que vai ser uma nova realidade para São Paulo", completa Cuartas.

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Medidas de contingência em vigor

A SP Águas informou que manterá a redução da pressão na rede, denominada Gestão de Demanda Noturna (GDN), por 10 horas diárias, no período das 19h às 5h. Em nota oficial, a empresa justificou a medida: "A decisão considera a necessidade de preservação dos níveis dos reservatórios diante da aproximação do período seco, além do desempenho hidrológico ainda abaixo do ideal em sistemas estratégicos. O Sistema Cantareira segue com níveis inferiores aos esperados para esta época do ano, indicando a necessidade de manutenção das medidas de gestão da demanda".

O contexto atual forma um cenário de crise no abastecimento hídrico que deve persistir até o final do ano, com possibilidade de restrições ainda maiores na distribuição de água para a população caso não ocorram mudanças significativas no padrão de consumo e na eficiência do sistema.