Sistema Cantareira enfrenta pior nível em uma década após verão com chuvas insuficientes
O verão chegou ao fim, mas as precipitações registradas não foram capazes de aliviar a situação crítica do Sistema Cantareira, o principal conjunto de reservatórios responsável pelo abastecimento da capital paulista e região metropolitana. A estação mais chuvosa do ano terminou com o manancial registrando o pior nível dos últimos dez anos para este período, deixando a população em alerta máximo diante da iminência do período seco, que se estende oficialmente de abril a setembro.
Reservatório opera com menos da metade da capacidade
Atualmente, o Sistema Cantareira opera com apenas 44% do seu volume útil, conforme projeções do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) que se concretizaram. As previsões iniciais do ano indicavam que, se as chuvas ficassem dentro da média histórica durante o verão, o sistema alcançaria aproximadamente 40% de sua capacidade. No entanto, o período chuvoso terminou com um déficit pluviométrico de 15% abaixo da média, agravando ainda mais o cenário de escassez.
"Esse é o pior índice que já vimos em 10 anos para um fim de verão. Estamos em um momento crítico, é preciso olhar para isso com essa gravidade", afirma Adriana Cuartas, especialista em hidrologia no Cemaden. A pesquisadora ressalta que o sistema vem enfrentando uma seca constante desde o ano passado, com índices pluviométricos consistentemente abaixo do esperado.
Impacto direto no abastecimento da população
O estado de São Paulo é abastecido por um conjunto integrado de sete reservatórios, incluindo o Sistema Cantareira, que juntos atendem quase 8 milhões de pessoas. Com o volume atual, a Sabesp já opera em situação de alerta, distribuindo apenas 27 metros cúbicos de água por segundo, contra os 33 m³/s que seriam possíveis em condições normais.
Na prática, essa redução significa:
- Distribuição diária de aproximadamente 2,33 bilhões de litros de água, em vez dos 2,85 bilhões em condições normais
- Mais de 500 milhões de litros a menos chegando à população a cada dia
- Áreas mais altas e periféricas da Grande São Paulo já sofrem com desabastecimento temporário
Cenário preocupante para os próximos meses
Pesquisadores do Cemaden realizaram análises considerando diferentes cenários pluviométricos para os próximos meses. Se o padrão recente de escassez se repetir, o Sistema Cantareira pode cair para cerca de 25% de sua capacidade até setembro, o que acionaria faixas de restrição ainda mais severas.
Nesse cenário extremo, o sistema operaria com apenas 23 metros cúbicos por segundo, distribuindo cerca de 1,9 bilhão de litros diários - quase um bilhão de litros a menos do que o necessário em um único dia para atender adequadamente a população.
Problema estrutural vai além da seca cíclica
Para a especialista Adriana Cuartas, o quadro atual aponta para um problema mais profundo do que um ciclo isolado de estiagem. "A avaliação é de que o sistema já opera sob uma condição próxima de 'seca permanente', o que exige mudanças na forma de gestão e consumo de água", explica a pesquisadora.
Um dos principais pontos críticos identificados é a eficiência da rede de distribuição. Segundo dados do Instituto Trata Brasil, o estado de São Paulo apresenta um índice de perdas na distribuição de 32,66%, o que significa que quase um terço da água tratada se perde antes de chegar efetivamente ao consumidor final.
"A gente não pode olhar apenas para a chuva quando pensamos na gestão do recurso. É preciso pensar o uso, as perdas no sistema, melhorar a eficiência e ter um plano real para essa que vai ser uma nova realidade para São Paulo", completa Cuartas.
Medidas de contingência em vigor
A SP Águas informou que manterá a redução da pressão na rede, denominada Gestão de Demanda Noturna (GDN), por 10 horas diárias, no período das 19h às 5h. Em nota oficial, a empresa justificou a medida: "A decisão considera a necessidade de preservação dos níveis dos reservatórios diante da aproximação do período seco, além do desempenho hidrológico ainda abaixo do ideal em sistemas estratégicos. O Sistema Cantareira segue com níveis inferiores aos esperados para esta época do ano, indicando a necessidade de manutenção das medidas de gestão da demanda".
O contexto atual forma um cenário de crise no abastecimento hídrico que deve persistir até o final do ano, com possibilidade de restrições ainda maiores na distribuição de água para a população caso não ocorram mudanças significativas no padrão de consumo e na eficiência do sistema.



