O avanço do mercado livre de energia e seus efeitos sobre consumidores e empresas dominou o segundo painel do VEJA Fórum de Energia 2026, realizado na manhã desta segunda-feira, 27 de abril, no hotel The Westin, no Itaim Bibi, em São Paulo. Promovido por VEJA e VEJA NEGÓCIOS, o evento reuniu autoridades e executivos para discutir os caminhos da segurança energética no país, com foco em previsibilidade, competitividade e transição do setor.
Mercado livre cresce e atrai pequenos consumidores
No painel dedicado a consumidor, preços e abertura de mercado, o diretor do BTG Pactual, Gustavo Cintra, apresentou dados que indicam uma transformação estrutural no consumo de energia no Brasil. Segundo ele, o mercado livre já soma mais de 85 mil unidades consumidoras, com crescimento de 32% em 12 meses. Atualmente, mais de 40% de toda a eletricidade consumida no país está contratada nesse ambiente, considerado mais competitivo.
Outro dado relevante é o perfil dessa expansão: 93% das migrações recentes são de consumidores com demanda inferior a 0,5 megawatt, indicando a entrada de empresas de menor porte no sistema. “O perfil do consumidor mudou. Antes, predominava a grande indústria; agora, são pequenos negócios, como supermercados e padarias. No próximo estágio, será o consumidor final”, afirma Cintra. “Trata-se de um cliente com despesas mensais entre 5 mil e 10 mil reais, muito diferente do padrão anterior do setor”, conclui.
Previsibilidade como valor central
Na avaliação do executivo, a expansão do mercado livre vem sendo conduzida com uma narrativa centrada no desconto, o que não reflete o principal benefício do modelo. Ao longo dos últimos anos, ganhos que chegavam a 25% ou 30% nas tarifas foram reduzidos para patamares entre 8% e 12%, em meio a mudanças regulatórias e à volatilidade de preços. “Houve um equívoco ao enfatizar apenas o preço. O valor central está na previsibilidade e na gestão de risco”, enfatiza.
Cintra defendeu que a energia deve passar a ser tratada como uma variável estratégica dentro das empresas, em linha com práticas já consolidadas no mercado financeiro. Segundo ele, já existem instrumentos capazes de reduzir a exposição a oscilações de preços e trazer maior estabilidade ao planejamento, deslocando o foco do desconto imediato para a previsibilidade de longo prazo.
Instabilidade regulatória freia investimentos
Se, por um lado, o avanço do mercado livre aponta para maior sofisticação na gestão de energia pelas empresas, por outro, o ambiente institucional ainda é visto como um entrave relevante para a expansão do setor. O CEO da Norsk Hydro no Brasil, Anderson Baranov, trouxe um contraponto ao destacar os riscos associados à falta de coordenação regulatória e de planejamento de longo prazo. A companhia, uma multinacional norueguesa com foco na produção de alumínio, atua de forma intensiva no consumo de energia e na geração própria no país.
Segundo ele, o país ainda convive com uma multiplicidade de interesses que dificulta a construção de uma política energética consistente. “Hoje há muitos interesses distintos, cada um puxando para um lado, o que acaba onerando o consumidor final”, afirmou. Para o executivo, o principal desafio não está na disponibilidade de recursos, mas na ausência de uma direção clara. “O Brasil ainda precisa definir, como sociedade, o que quer para o setor de energia. Sem planejamento, não há maturidade.”
Baranov também chamou atenção para o impacto desse cenário sobre as decisões de investimento. Ele afirma que a Norsk Hydro já investiu bilhões em geração própria e descarbonização de suas operações no país, mas a percepção de instabilidade pesa na hora de novos aportes. “Sem investimento, não há uma discussão madura sobre o setor. E isso compromete o crescimento do país”, afirmou o executivo.
A discussão ocorre em um momento de pressão sobre preços de energia e combustíveis, desafios regulatórios e incertezas no cenário internacional, fatores que ampliam a demanda por instrumentos de proteção e planejamento.



