Chuvas de verão em Piracicaba atingem 775 mm, maior volume desde 2011
Chuvas em Piracicaba: 775 mm no verão, maior desde 2011

Chuvas de verão em Piracicaba superam 775 milímetros, recorde desde 2011

O verão ainda não chegou ao fim, mas Piracicaba, no interior de São Paulo, já enfrenta um dos períodos mais chuvosos da última década. De acordo com dados do Centro Integrado de Informações Agrometeorológicas (Ciiagro), o acumulado de precipitações na estação atingiu impressionantes 775 milímetros até a última quinta-feira (12). Esse volume representa o maior registro desde 2011, quando a cidade contabilizou 973 milímetros entre dezembro de 2010 e março daquele ano.

Impactos positivos e negativos das precipitações intensas

O cenário de chuvas abundantes traz consequências ambíguas para a região. Por um lado, os mananciais que abastecem Piracicaba e municípios vizinhos estão sendo significativamente beneficiados. Alexandre Vilela, coordenador de monitoramento hidrológico dos Comitês das Bacias PCJ, destaca que, após um período de estiagem entre outubro e meados de janeiro, as chuvas acima da média a partir da segunda quinzena de janeiro têm sido cruciais para a recuperação dos reservatórios.

"Fevereiro fechou com 60% mais chuvas do que o esperado, o que é positivo para aumentar a carga dos mananciais", afirma Vilela. No entanto, ele alerta para a necessidade de cuidado no consumo, uma vez que o sistema Cantareira, vital para a região, opera atualmente com cerca de 40% de sua capacidade, abaixo dos 60% registrados no mesmo período de 2025.

Agricultura local sofre com solo encharcado

Enquanto os reservatórios se recuperam, a agricultura enfrenta sérios desafios. O produtor rural Valdemar Possignolo relata que o solo de sua plantação de cana-de-açúcar está completamente encharcado, impedindo o uso de máquinas pesadas. "Estamos parados com os maquinários porque não conseguimos entrar no solo. As chuvas contínuas fazem com que a máquina atole e patine, não permitindo um bom preparo", explica.

O excesso de chuvas também revive memórias difíceis para comerciantes locais. Fernando Bera, proprietário de um restaurante na Rua do Porto, lembra dos estragos causados por uma cheia histórica do Rio Piracicaba. "Foi bem difícil, todos os restaurantes perderam tudo. Para recomeçar foram 30 dias de limpeza e quase 40 dias para reestruturar", recorda.

Rio Piracicaba atinge nível de extravasamento

O volume de chuvas fez com que o Rio Piracicaba atingisse quase 5 metros de profundidade entre os dias 11 e 13 de março, entrando em estado de extravasamento – que ocorre quando o nível ultrapassa 4,70 metros. O sistema de alerta por cores da região indica:

  • Atenção: a partir de 3,20 metros
  • Alerta: a partir de 3,70 metros
  • Emergência: a partir de 4,20 metros
  • Extravasamento: a partir de 4,70 metros

Fevereiro de 2026 já é histórico em Piracicaba

Embora fevereiro ainda não tenha terminado, o mês já lidera o ranking de mais chuvoso na comparação com o mesmo período desde 2020. Em apenas 11 dias, Piracicaba registrou mais de 210 milímetros de chuvas, segundo balanço do Posto Meteorológico Jesus Marden do Santos da Esalq/USP. O valor parcial de 278,8 milímetros já supera em quase 18% a média histórica esperada para todo o mês, que é de 178,7 milímetros.

Comparativo de fevereiro nos últimos anos:

  1. Fevereiro de 2020: 398,9 milímetros
  2. Fevereiro de 2021: 94,3 milímetros
  3. Fevereiro de 2022: 128,8 milímetros
  4. Fevereiro de 2023: 170,4 milímetros
  5. Fevereiro de 2024: 141 milímetros
  6. Fevereiro de 2025: 119,1 milímetros
  7. Fevereiro de 2026: 278,8 milímetros (parcial)

Benefícios para alguns produtores rurais

Nem todos os agricultores sofrem com as chuvas intensas. Julio Natalino, produtor de frutas vermelhas em Piracicaba, afirma que as precipitações garantem economia de até 90% em água e energia em sua propriedade. "Com as chuvas, precisamos irrigar menos. Economizamos água e energia, consequentemente", relata. A chuva também assegura que o poço artesiano da propriedade não sofra em caso de escassez hídrica, garantindo irrigação ao longo do ano.

Verão com temperaturas atípicas e alagamentos urbanos

O verão de 2026 em Piracicaba também se destaca por temperaturas abaixo do esperado. Nos primeiros 11 dias de fevereiro, as máximas ficaram em torno de 24°C a 26°C, contrastando com fevereiro de 2025, que foi o mês mais quente em 108 anos na cidade.

As chuvas intensas causaram transtornos urbanos significativos. No dia 9 de fevereiro, Piracicaba registrou 43 milímetros de chuvas em menos de duas horas, conforme medição da Estação Meteorológica da Esalq. A Avenida 31 de Março, ponto conhecido por alagamentos recorrentes, foi rapidamente tomada pelas águas.

Fenômeno meteorológico explica chuvas persistentes

Segundo previsão do Climatempo, fevereiro começou com um novo episódio de Zona de Convergência do Atlântico Sul (ZCAS), sistema que resulta em temporais persistentes durante o verão. "Um novo corredor de umidade começou a se configurar, atravessando o país desde o Norte até o Sudeste, favorecendo a formação de extensas áreas de instabilidade", descreve a previsão.

Enquanto as chuvas continuam, Piracicaba vive um verão de contrastes: entre a recuperação dos mananciais e os desafios para agricultura e infraestrutura urbana.