O estado de São Paulo enfrenta um cenário de crise hídrica crítica, com o Sistema Produtor do Alto Tietê (SPAT) apresentando os piores índices desde a histórica escassez de 2014. O alerta foi emitido pelo Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), que aponta uma sequência de meses com chuvas abaixo do esperado e reservatórios em declínio constante.
Reservatórios em queda e um verão que não traz alívio
De acordo com os dados monitorados, os reservatórios da região registram quedas constantes de volume desde abril de 2025. A situação se agravou a partir de maio do mesmo ano, quando todos os meses subsequentes registraram precipitações inferiores à quantidade necessária para manter os níveis das represas. Condições hidrológicas desfavoráveis, como longos períodos de estiagem, vazões afluentes abaixo da média e níveis iniciais já baixos, criaram um cenário preocupante.
As pesquisadoras de hidrologia do Cemaden, Elisangela Broedel e Adriana Cuartas, explicam que a seca atual é resultado de uma combinação perigosa: falta de chuva e altas temperaturas persistentes. “A intensidade e persistência resultam de uma combinação de fatores, que incluem precipitações abaixo da média, distribuição irregular das chuvas, temperaturas persistentemente elevadas”, afirmam. Essa irregularidade, com chuvas concentradas em poucos episódios intensos, reduz drasticamente a eficiência da recarga dos sistemas.
Perspectiva sombria mesmo na estação chuvosa
O verão, tradicional período de recuperação dos mananciais, não trouxe o esperado alívio em 2026. Janeiro deveria registrar 232,1 mm de chuva até o dia 30, mas o acumulado até a metade do mês representava apenas 62,1% desse total. As previsões para o trimestre de janeiro a março não são otimistas, indicando chuvas próximas ou inferiores à média histórica.
As especialistas são categóricas: mesmo que as chuvas fiquem acima da média, não há garantia de recuperação satisfatória. “A resposta do SPAT não depende apenas do volume total de precipitação, mas também da distribuição temporal das chuvas”, destacam. A perspectiva mais realista é a manutenção das condições críticas durante o restante do verão e um declínio ainda maior na disponibilidade de água durante o período seco de 2026, que vai de abril a setembro.
Escassez crônica e a urgência de soluções
Em visita a Biritiba-Mirim, a secretária de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística do Estado, Natália Rezende, reforçou a gravidade da situação. Ela lembrou que São Paulo vive com uma disponibilidade de água 10 vezes menor do que o recomendado pela ONU. “Enfrentamos uma situação de escassez hídrica crônica, sobretudo na região metropolitana. Com uma população de mais de 22 milhões, precisamos urgentemente melhorar nossa segurança hídrica”, declarou.
O SPAT, um conjunto de cinco reservatórios localizados entre Suzano e Salesópolis, é vital para o abastecimento de mais de 4,5 milhões de pessoas na Grande São Paulo. Em meio à crise, especialistas apontam medidas urgentes:
- Fortalecimento do monitoramento contínuo de níveis, chuvas e vazões.
- Campanhas de conscientização para o uso eficiente e restritivo da água.
- Preparação para a implementação de restrições mais severas, incluindo racionamento, se necessário.
Apesar do quadro grave, um pequeno sinal de alívio foi registrado. Entre dezembro de 2025 e a primeira metade de janeiro de 2026, houve um aumento de 3% no volume útil dos reservatórios, atribuído a chuvas recentes. A represa de Biritiba Mirim, por exemplo, ultrapassou a marca de 30% de volume útil pela primeira vez em mais de seis meses. No entanto, o índice ainda está bem abaixo dos 40,6% registrados no mesmo período do ano anterior, mostrando que o caminho para a recuperação total ainda é longo e incerto.