Cientistas identificam vidro raro de impacto de meteorito no Brasil há 6,3 milhões de anos
Vidro raro de meteorito no Brasil há 6,3 milhões de anos

Cientistas identificam vidro raro gerado por impacto de meteorito no Brasil há 6,3 milhões de anos

Uma equipe de cientistas brasileiros realizou uma descoberta geológica histórica: a identificação, pela primeira vez em território nacional, de um tipo raro de vidro natural formado pelo impacto da queda de um meteorito há aproximadamente 6,3 milhões de anos. Esta revelação dos chamados tectitos representa um marco significativo para a compreensão da história de colisões cósmicas que moldaram a superfície terrestre ao longo de milênios.

O que são tectitos e por que são tão raros?

Os tectitos são fragmentos de vidros naturais que surgem exclusivamente a partir do choque de corpos extraterrestres contra a crosta terrestre. O impacto libera uma energia colossal, suficiente para derreter e fundir rochas ricas em sílica, que são então arremessadas à atmosfera e resfriam rapidamente, solidificando-se nesse material peculiar.

"Tectito é um material extremamente raro, com pouquíssimas ocorrências registradas em todo o mundo. Nossa descoberta constitui a sétima área confirmada globalmente. Esses fragmentos se espalham por extensas regiões, mas os eventos capazes de gerá-los são escassos, o que confere um interesse científico extraordinário", explica Álvaro Crostra, professor do Instituto de Geociências da Unicamp, que estuda estruturas de impacto meteorítico desde a década de 1970.

Brasil se torna o sétimo campo de tectitos do planeta

Até então, registros desse tipo de fragmento eram conhecidos em apenas seis localidades do globo: Australásia, Europa Central, Costa do Marfim, América do Norte, Belize e Uruguai. Com a comprovação científica, o campo brasileiro agora integra oficialmente esse seleto grupo, sendo batizado de geraisitos em homenagem aos primeiros exemplares encontrados em municípios do norte de Minas Gerais, como Taiobeiras, Curral de Dentro e São João do Paraíso.

Os pesquisadores já catalogaram mais de 600 exemplares de tectitos distribuídos pelos estados de Minas Gerais, Bahia e Piauí, abrangendo uma área aproximada de 900 quilômetros. Para confirmar a origem cósmica do material, foram realizadas análises químicas, isotópicas e geocronológicas de alta precisão, que apontaram para a colisão ocorrida há 6,3 milhões de anos.

Características físicas dos geraisitos brasileiros

Os fragmentos descobertos no Brasil possuem dimensões modestas, cabendo na palma da mão, com medidas de até 5 centímetros e pesos variando entre 1 grama e 85,4 gramas. Visualmente, os geraisitos se apresentam como pequenas estruturas pretas e opacas quando observadas sob luz normal, mas revelam uma aparência translúcida e verde acizentada quando expostos à luz intensa.

Os formatos são diversificados, assumindo configurações esféricas, torcidas, em gotas, discos e com cavidades superficiais. "O material de rocha derretida espirra e, ao viajar em contato com o ar enquanto resfria, adquire formas aerodinâmicas características, como gotas, bastões e discos típicos dos tectitos. As cavidades correspondem a bolhas de gases presas durante o resfriamento", detalha o professor Crósta.

Composição geoquímica e busca pela cratera misteriosa

As amostras de geraisitos foram submetidas a exames minuciosos em laboratórios do Brasil, França, Áustria e Austrália, utilizando técnicas como microanálises químicas, datação isotópica e espectroscopia no infravermelho. Os resultados demonstraram que o material é rico em sílica, possui teor de água extremamente baixo e contém inclusões de lechatelierita, um vidro quase puro de sílica típico de eventos de impacto meteorítico.

Essas características afastam definitivamente a hipótese de origem vulcânica e corroboram a teoria do impacto cósmico. A datação por isótopos de argônio confirmou a idade de aproximadamente 6,3 milhões de anos para o evento.

Uma das grandes questões que permanece em aberto é a localização da cratera gerada pelo impacto. As evidências geoquímicas sugerem que os tectitos brasileiros se originaram de rochas graníticas antigas do cráton de São Francisco, uma área estável que abrange partes de Minas Gerais, Bahia, Sergipe, Pernambuco e Goiás.

"O cráton de São Francisco é nosso principal candidato para abrigar a cratera, que pode estar exposta, erodida ou recoberta após seis milhões de anos. A extensão do campo de tectitos, maior que o da República Tcheca, sugere que se trata de uma estrutura de porte considerável", pondera o pesquisador.

Impacto científico e próximos passos da pesquisa

A descoberta, publicada na renomada revista científica Geology em dezembro de 2025, contou com a colaboração de pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), da Universidade de São Paulo (USP) e de instituições internacionais. Segundo os autores, o achado amplia substancialmente o conhecimento sobre impactos de meteoritos na América do Sul, região ainda pouco explorada nesse contexto geológico.

Além de inserir o Brasil no mapa mundial dos tectitos, a revelação inaugura novas linhas de investigação sobre a história geológica do território e os eventos extremos que modelaram a crosta terrestre. Os estudos prosseguirão em múltiplas frentes:

  • Comparação com outros campos de tectitos para auxiliar na localização da cratera.
  • Análises microestruturais no Sirius, o maior acelerador de partículas da América Latina, localizado em Campinas.
  • Expansão da pesquisa ao Sítio Arqueológico da Serra da Capivara, visando investigar possíveis utilizações dos tectitos por povos originários do Brasil.

Esta descoberta não apenas enriquece o acervo científico nacional, mas também destaca a relevância da pesquisa geológica brasileira no cenário internacional, abrindo perspectivas inéditas para o estudo de fenômenos cósmicos que influenciaram a evolução do nosso planeta.