Teiú gera calor interno na época de acasalamento, revela estudo inédito da Unesp
Teiú aquece corpo na reprodução, mostra pesquisa da Unesp

O mistério do calor interno do Teiú na época do acasalamento

Nas manhãs ensolaradas do interior paulista, é comum observar o Teiú (Salvator merianae) estendido sobre pedras ou troncos, absorvendo o calor do sol como se estivesse carregando uma bateria interna. Como a maioria dos répteis, ele é um animal ectotérmico, dependendo do ambiente para regular sua temperatura corporal. No entanto, algo extraordinário acontece quando chega a hora da paquera e da busca por um parceiro reprodutivo.

Descoberta científica em Jaboticabal desafia a biologia

Sob a terra, no silêncio de suas tocas escuras, o maior lagarto do Brasil guardava um segredo metabólico que foi finalmente desvendado pela ciência. Pesquisadores da Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias da Unesp (FCAV-UNESP), em Jaboticabal (SP), com apoio da FAPESP, descobriram o mecanismo exato que permite ao Teiú elevar sua própria temperatura corporal durante a temporada de reprodução.

O fenômeno ocorre mesmo no interior de tocas geladas e sem luz, desafiando a lógica biológica estabelecida de que apenas aves e mamíferos seriam capazes de gerar calor interno de forma constante. Esta é uma revelação inédita que coloca o Teiú em uma posição única entre os répteis.

O "fogo interno" das células musculares

A descoberta, publicada na revista científica Acta Physiologica, revela que o segredo não está no movimento, mas na química celular. Ao contrário das pítons asiáticas, que são as únicas outras representantes dos répteis conhecidas por se aquecerem através do tremor muscular (calafrios), o Teiú gera calor de forma silenciosa e imóvel.

O grupo de pesquisa liderado pela professora Kênia Cardoso Bícego descobriu que, durante a primavera (época de acasalamento), os músculos do lagarto passam por uma transformação radical. As células musculares começam a produzir uma quantidade muito maior de mitocôndrias, as usinas de energia do corpo.

"De modo geral, apenas aves e mamíferos são considerados endotérmicos. Os répteis dependem de fontes externas. Esta é a primeira descrição em um lagarto de um mecanismo celular de geração de calor que se assemelha muito ao que acontece em aves e mamíferos", explica Kênia Bícego à Agência Fapesp.

A proteína ANT: a chave do aquecimento

A pesquisa identificou que uma proteína específica chamada ANT, presente nas mitocôndrias, torna-se extremamente ativa no período reprodutivo. É ela a responsável por converter energia em calor nos músculos do animal.

Curiosamente, esse mecanismo é idêntico ao encontrado em aves, enquanto mamíferos utilizam uma proteína diferente (UCP). Esse aquecedor biológico entra em ação em momentos cruciais:

  • Nas fêmeas: auxilia na preparação para a postura dos ovos e construção do ninho.
  • Nos machos: garante energia para a defesa de território e o aumento das gônadas para o acasalamento.

Hormônios e evolução: a chave que liga o aquecedor

Para chegar a esses resultados, a equipe acompanhou dez lagartos durante três anos, realizando biópsias musculares no verão e na primavera. A investigação sugere que a chave que ativa esse aquecedor são os hormônios sexuais (testosterona, estradiol e progesterona) e os hormônios da tireoide, que atingem o pico justamente na fase do amor e da reprodução.

Implicações evolutivas e sobrevivência

Além de fascinar entusiastas da natureza, o estudo joga luz sobre a própria história da vida na Terra. O fato de um lagarto subtropical possuir esse mecanismo sugere que a capacidade de gerar calor interno pode ter surgido nos vertebrados muito antes do que os cientistas estimavam.

Como o Teiú possui um corpo robusto, o calor gerado internamente demora a se dissipar. Nas sombras da toca, enquanto o mundo lá fora esfria, ele permanece aquecido, um sobrevivente resiliente que carrega em seus músculos uma centelha de vida que a ciência, finalmente, conseguiu mapear em detalhes.