Cientistas do Amapá criam startups para transformar biodiversidade amazônica em medicamentos
Pesquisadores do Amapá desenvolvem fármacos da Amazônia

Um grupo de pesquisadores do Amapá está transformando o conhecimento tradicional e a rica biodiversidade da Amazônia em soluções de saúde inovadoras e produtos cosméticos. A iniciativa, que nasceu no Laboratório de Pesquisas em Fármacos da Universidade Federal do Amapá (Unifap), deu origem a duas startups com missões complementares: uma focada no desenvolvimento de medicamentos com tecnologia de saúde avançada, e outra dedicada à fabricação e comercialização dos produtos finais.

Da floresta ao laboratório: o caminho da inovação

A ideia central do projeto é buscar soluções para doenças que afetam a população brasileira, partindo do conhecimento já utilizado por povos originários. Os cientistas decidiram aprofundar estudos científicos a partir de plantas medicinais amazônicas, validando e potencializando seus usos tradicionais.

Abrahão Tavares, doutorando em Inovação Farmacêutica, detalha o rigoroso processo: “Nós avaliamos se o produto natural, seja planta ou extrato, possui propriedade biológica comprovada, se tem atividade terapêutica, ausência de toxicidade e se pode trazer benefícios reais. Uma vez confirmado o potencial farmacêutico ou cosmético, iniciamos a segunda etapa, que é o estudo de aplicação tecnológica sobre essa matéria-prima”.

O processo completo envolve várias etapas críticas: a seleção e rastreabilidade do insumo, parcerias com produtores locais, extração vegetal avançada, desenvolvimento de formulações farmacêuticas e cosméticas, testes laboratoriais extensivos, validação científica e, finalmente, a preparação de registros sanitários tanto no Brasil quanto para mercados internacionais.

Conhecimento tradicional e ciência de ponta

O farmacêutico Heitor Silva ressalta a importância fundamental da conexão com as comunidades tradicionais para o sucesso da empreitada. “Esse contato é a base para valorizar o conhecimento popular. A partir desse saber, nós transformamos a matéria-prima bruta em extrato vegetal padronizado e, posteriormente, em formulações inéditas e eficazes para o mercado”, afirmou.

Entre os ativos amazônicos que estão sob intensa investigação estão:

  • Jambu: com potenciais aplicações em anestesia local, neuroestimulação e saúde sexual.
  • Açaí: estudado por sua poderosa ação antioxidante e neuroprotetora, com potencial para prevenir Acidentes Vasculares Cerebrais (AVC).
  • Copaíba: conhecida por seu efeito anti-inflamatório e cicatrizante.
  • Andiroba: com ação anti-inflamatória e regenerativa comprovada.

O Laboratório de Pesquisas em Fármacos da Unifap (LPFar), liderado pelo professor José Carlos Tavares, é o coração científico do projeto. Com uma infraestrutura moderna, o laboratório atua em áreas como química de produtos naturais, farmacologia, nanobiotecnologia e fitoterápicos, e já gerou formulações promissoras, como o nano-urucum, indicado para o tratamento de dores e síndromes metabólicas.

Desafios e ambições globais

Apesar do otimismo, os pesquisadores enfrentam obstáculos reais. Aline Lopes, doutoranda em Inovação Farmacêutica, explica uma das principais dificuldades: “Existem espécies valiosas que não estão disponíveis em grandes quantidades para cultivo ou extração sustentável. Além disso, muitos bioativos são sensíveis a luz, temperatura e processamento, o que exige tecnologias especiais para estabilização”.

Isso, no entanto, não diminui as ambições do projeto. A empresa está em uma fase avançada de expansão e estruturação regulatória internacional. O plano é claro: não exportar apenas matéria-prima, mas tecnologia e produtos de saúde natural com alto valor agregado.

Frank Portela, CEO da startup, afirma que o objetivo é alcançar impacto mundial. “Estamos olhando para o mercado internacional com o viés da biotecnologia genuinamente amazônica, gerando pesquisa e desenvolvimento de ponta. Já estudamos produtos com potencial para o combate ao câncer, reumatismo e saúde sexual”, disse.

A meta é iniciar a produção em escala industrial em abril de 2026, com o apoio de investimento externo. O foco de exportação inclui mercados exigentes como América Latina, Estados Unidos e Europa, onde os fármacos desenvolvidos a partir da biodiversidade brasileira já começam a despertar interesse.