Ciência desmistifica estereótipos de gênero sobre empatia e revela nova masculinidade
Estudos desafiam estereótipos de gênero sobre empatia e masculinidade

Estudos científicos desconstroem mitos sobre empatia e gênero

Pesquisas científicas contemporâneas estão desafiando profundamente estereótipos de gênero históricos sobre empatia, abrindo novas perspectivas para compreender a masculinidade e o comportamento humano. Durante séculos, persistiu a crença de que características como empatia seriam naturalmente femininas, enquanto traços como dominância e assertividade seriam masculinos.

Raízes históricas dos preconceitos de gênero

Desde o século XVIII, com a filósofa Mary Astell questionando a atribuição de grandes feitos femininos a "homens de saias", até a célebre declaração da rainha Elizabeth 1ª sobre governar "como um rei apesar do corpo de mulher frágil", os estereótipos de gênero moldaram percepções sociais. Mesmo hoje, quando homens e mulheres demonstram comportamentos idênticos, frequentemente são avaliados diferentemente: homens como assertivos, mulheres como agressivas.

A complexidade biológica da empatia

A empatia envolve múltiplas dimensões:

  • Empatia cognitiva: capacidade de reconhecer emoções e adotar perspectivas alheias
  • Empatia afetiva: reação emocional aos sentimentos dos outros
  • Resposta adequada às necessidades emocionais

Simon Baron-Cohen, psicólogo da Universidade de Cambridge, propôs que o cérebro feminino seria "programado para empatia" enquanto o masculino para "compreensão de sistemas". Seus estudos com mais de 200 crianças relacionaram níveis de testosterona no útero com habilidades de sistematização, sugerindo influência hormonal no desenvolvimento social.

Críticas à teoria hormonal e evidências genéticas

A neurocientista Gina Rippon contesta essa visão, considerando-a parte do "mito do cérebro feminino". Estudos paradigmáticos mostram que:

  1. Mulheres apresentaram maior empatia em apenas 36 de 57 países analisados
  2. Em 21 países, as pontuações foram muito semelhantes entre gêneros
  3. A variação dentro de cada gênero é maior que a variação entre gêneros

Pesquisa genética de 2018 com 46 mil participantes revelou que apenas 10% da variação em empatia vem de fatores genéticos, e nenhum gene específico está associado ao sexo. Varun Warrier, da Universidade de Cambridge, enfatiza que "é igualmente importante compreender os fatores não genéticos".

Socialização e poder na construção da empatia

Muitos cientistas argumentam que mulheres demonstram mais empatia não por fatores inatos, mas por socialização diferenciada:

  • Meninas são ensinadas desde cedo a priorizar necessidades alheias
  • Brinquedos "femininos" enfatizam habilidades de cuidado
  • Meninos são incentivados a brincar com ferramentas e carrinhos

Estudos mostram que o poder econômico e social distorce a empatia. Pessoas em posições de menor poder desenvolvem maior capacidade de reconhecer emoções, possivelmente como estratégia de sobrevivência social. A posição histórica de menor poder das mulheres pode explicar parcialmente suas pontuações mais altas em testes de empatia.

A maleabilidade da empatia e experimentos reveladores

Nathan Spreng, neurologista da Universidade McGill, afirma que "a empatia pode ser aprendida" e não é estática. Estudos neurológicos de 2023 mostraram que:

  1. Ondas cerebrais de homens e mulheres reagem similarmente a expressões faciais
  2. Diferenças de gênero em autorrelatos desaparecem quando homens recebem informação positiva sobre suas habilidades empáticas
  3. Quando há recompensa financeira por identificar emoções, a precisão aumenta igualmente em ambos os gêneros

Sara Hodges, psicóloga da Universidade do Oregon, propõe que mulheres podem apresentar maior precisão empática não por habilidade inata, mas por maior motivação social. A empatia seria um processo dinâmico que mobiliza múltiplas fontes de informação, incluindo linguagem corporal, experiências pessoais e estereótipos.

Consequências sociais e novas masculinidades

As expectativas sobre empatia produzem graves consequências sociais:

  • Mulheres são consideradas menos propensas à liderança por associação com características "masculinas"
  • Homens enfrentam maior risco de solidão e taxas mais altas de suicídio
  • Estereótipos limitam oportunidades profissionais e pessoais

Niall Hanlon, sociólogo da Universidade Tecnológica de Dublin, observa mudanças positivas: homens passam mais tempo com filhos e expressam desejo de maior envolvimento familiar. A redefinição da masculinidade para incluir cuidado e empatia pode prevenir solidão e promover relações mais saudáveis.

"Há muitas pesquisas que mostram que isso é muito melhor para homens, mulheres e crianças", afirma Hanlon, destacando a importância de modelos masculinos que enfatizem interdependência em vez de autonomia individual centrada no poder.

A ciência contemporânea revela assim que a empatia não é destino biológico, mas habilidade desenvolvida através de complexas interações entre fatores sociais, expectativas culturais e motivações pessoais, abrindo caminho para transformações profundas em como compreendemos gênero e relações humanas.