Estudo investiga possível canibalismo entre orcas na ilha de Bering
Uma pesquisa científica publicada na revista Marine Mammal Science está analisando evidências de possíveis ataques canibais entre orcas na ilha de Bering. O estudo foca em dois episódios registrados em 2022 e 2024, onde nadadeiras de orcas foram encontradas com marcas de dentes compatíveis com mordidas de outras orcas da mesma espécie.
Marcas de dentes levantam hipótese de predação
As nadadeiras arrancadas, descobertas na ilha de Bering, apresentavam lesões características que levaram os pesquisadores a considerar a possibilidade de canibalismo. Segundo os autores do estudo, embora não seja possível descartar completamente que os animais já estivessem mortos antes do consumo, a explicação mais provável é a de predação ativa.
Isso ocorre porque carcaças de orcas costumam afundar rapidamente no mar, tornando-se inacessíveis para outros animais. Os pesquisadores também consideram improvável que as lesões tenham resultado apenas de agressões entre indivíduos, já que orcas que caçam mamíferos marinhos normalmente consomem as presas e deixam para trás partes com menor valor energético, como as nadadeiras.
Divisão entre grupos de orcas
Todas as orcas pertencem à mesma espécie, mas na ilha de Bering existem dois grupos distintos com comportamentos muito diferentes:
- Orcas residentes: Alimentam-se principalmente de peixes, vivem em grandes famílias estáveis lideradas por fêmeas, onde filhos e filhas permanecem com a mãe por toda a vida.
- Orcas transientes: Vivem em grupos menores e caçam mamíferos marinhos como focas, leões-marinhos e outras baleias.
Esses dois grupos não se misturam, não cruzam e não convivem, apesar de compartilharem o mesmo ambiente marinho. Segundo o estudo, é provável que as orcas transientes simplesmente tratem as residentes como presas em potencial.
Implicações evolutivas do comportamento
Os pesquisadores sugerem que essa separação entre grupos pode existir há centenas de milhares de anos. A ameaça constante de ataques pode ter contribuído para que as orcas residentes desenvolvessem estruturas familiares muito coesas e estáveis.
Grupos grandes e permanentes aumentam significativamente as chances de proteção contra predadores, enquanto encontros entre diferentes famílias, que ampliam temporariamente a dispersão dos indivíduos, podem elevar o risco de ataques. Curiosamente, um desses encontros foi registrado poucos dias antes de uma das nadadeiras ser encontrada na ilha de Bering.
O que o estudo revela sobre especiação
Embora o estudo não confirme de forma definitiva que houve caça ativa entre as orcas, ele reúne indícios consistentes de predação entre grupos distintos. A pesquisa também reforça uma hipótese evolutiva importante: quando populações deixam de se misturar por longos períodos, podem se tornar cada vez mais diferentes geneticamente e comportamentalmente, até o ponto de se transformarem em espécies separadas.
O caso das orcas da ilha de Bering oferece uma janela única para entender como comportamentos predatórios podem influenciar a dinâmica social e evolutiva de espécies marinhas, destacando a complexidade das interações entre grupos animais que compartilham o mesmo habitat.



