Glifosato expulsa povos do Baixo Tapajós com 'sufocamento', revela pesquisa da USP
Glifosato expulsa povos tradicionais no Baixo Tapajós

O uso intensivo do herbicida glifosato nas vastas plantações de soja no oeste do Pará está atuando como um mecanismo silencioso de expulsão de comunidades tradicionais da Amazônia. Uma pesquisa da Universidade de São Paulo (USP) realizada na região do Baixo Tapajós detalha como o produto químico, pulverizado em larga escala, gera uma série de danos interligados que tornam a vida nos territórios ancestrais cada vez mais insustentável.

O conceito de "expulsão por sufocamento"

O estudo, conduzido pelo pesquisador Fabio Zuker da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, introduz o termo "expulsão por sufocamento" para descrever o processo. Baseado em dezoito meses de trabalho etnográfico na região, o trabalho foi publicado na revista acadêmica Environment and Planning E: Nature and Space.

Zuker argumenta que o glifosato, amplamente utilizado no agronegócio brasileiro, causa impactos que vão muito além do ambiental. O herbicida, frequentemente aplicado com o auxílio de aviões sobre áreas de plantio que muitas vezes foram griladas, produz um efeito cascata sobre a saúde, a alimentação e a economia local.

Impactos diretos na saúde e subsistência

Os relatos coletados pela pesquisa são alarmantes. Comunidades indígenas, quilombolas e ribeirinhas descrevem episódios recorrentes de problemas respiratórios após as pulverizações aéreas e terrestres do veneno. A reação imediata é muitas vezes a necessidade de se trancar dentro de casa para fugir da nuvem tóxica.

Além do sufocamento literal, ocorre um sufocamento dos modos de vida. O glifosato contamina roças, destrói cultivos tradicionais e restringe o acesso a fontes de subsistência. A perda da segurança alimentar e dos meios de geração de renda cria um cenário de asfixia material e social.

Esses danos respiratórios, alimentares e econômicos se reforçam mutuamente, formando uma rede de pressões que gradualmente empurra famílias inteiras para fora de suas terras. A permanência se torna inviável, facilitando a consolidação da fronteira agrícola.

Sustentando o mito do "vazio" amazônico

A pesquisa vai além e conecta esse processo químico contemporâneo a uma narrativa histórica perversa. Zuker aponta que os danos lentos e contínuos do glifosato ajudam a atualizar o imaginário de que a Amazônia é um espaço vazio e disponível para exploração.

Essa ideia não é nova, tendo sido construída ao longo de décadas por políticas de estado, desde a Marcha para o Oeste, no governo Vargas, até o Plano de Integração Nacional da ditadura militar. Agora, o esvaziamento humano provocado pelo agrotóxico cumpre o papel de concretizar no terreno esse projeto antigo, abrindo caminho para a consolidação do agronegócio.

O estudo conclui que, no Baixo Tapajós, o glifosato atua tanto de forma literal, intoxicando corpos e terras, quanto simbólica, minando a capacidade das comunidades de existir e resistir em seus territórios. A expansão da soja, portanto, não se dá apenas pelo desmatamento, mas por uma lenta e violenta transformação química do ambiente e das condições de vida.