Irmãos desaparecidos no Pico da Bandeira reencontram família após 60 horas de angústia
Irmãos desaparecidos no Pico da Bandeira reencontram família

Irmãos sobrevivem a 60 horas perdidos no Pico da Bandeira após enfrentarem frio e fome

Após quase 60 horas desaparecidos durante uma trilha no Pico da Bandeira, localizado no Caparaó capixaba, os irmãos Jonatan Peixoto Ribeiro, de 24 anos, e Juliana Peixoto Ribeiro, de 27, foram reencontrados com a família. Eles relataram como enfrentaram condições extremas de fome, frio intenso e desidratação até conseguirem ajuda. Os dois revelaram que, em certos momentos, sofreram alucinações e chegaram a imaginar pessoas que viriam resgatá-los, um reflexo do desgaste físico e mental.

Desaparecimento e busca intensiva na montanha

Os irmãos foram localizados na manhã de quarta-feira (25), na área de Pedra Roxa, distrito de Santa Marta, em Ibitirama, na Região do Caparaó Capixaba. Eles haviam partido para a trilha acreditando que o passeio seria rápido, levando apenas pouca água e sem alimentos. "Durante esse tempo todo a gente ficou sem comer. Bebemos um pouco da água da cachoeira, para não ficar desidratado mesmo. Durante o dia a gente foi seguindo um caminho, à noite tentou arrumar um abrigo, para descansar. Na primeira noite, a gente pegou muita chuva, porque o local não estava totalmente coberto, então a gente dormiu no molhado e de manhã a gente continuou descendo", contou Jonatan em entrevista.

Juliana acrescentou que a exaustão levou a experiências perturbadoras: "Por conta do cansaço, sem dormir direito, com fome, teve um certo momento que a gente realmente olhava assim e via alguém, achava que era alguém para ajudar a gente, e quando chegava perto não tinha nada. Foi meio complicado sim", relatou a irmã, destacando o impacto psicológico da situação.

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Condições adversas e estratégias de sobrevivência

A dupla bebeu água de cachoeiras para evitar a desidratação e buscou manter o ritmo, descendo o máximo possível durante o dia para se aproximar da base da montanha. À noite, o maior desafio foi o frio cortante. Jonatan explicou: "Na primeira noite, a gente não se preocupou com abrigo, porque acreditamos que a descida seria rápida. Então, a noite caiu e a gente ficou perto de uma cachoeira, numa pedra, abraçados. No segundo dia, o frio pegou mais, a gente dormiu embaixo de uma gruta que eu forrei com bambu e com folhas".

Eles relataram que conseguiram chegar ao topo do Pico do Calcado, a 2.849 metros de altitude, próximo ao Pico da Bandeira (2.891 metros). Após aguardarem o nascer do sol e tirarem fotos, uma forte neblina encobriu a região, dificultando a visibilidade. Acostumados a trilhas, inclusive de moto, os dois afirmaram que nunca tinham subido uma montanha tão alta. Na descida, a baixa visibilidade os fez perder as demarcações da trilha.

Operação de resgate envolveu múltiplas equipes

Cerca de 30 pessoas participaram das buscas, incluindo técnicos do parque, militares do Corpo de Bombeiros Militar do Espírito Santo e voluntários. Os irmãos saíram na madrugada de segunda-feira do acampamento Casa Queimada, no lado mineiro do parque, e só conseguiram chegar a uma casa em Santa Marta na manhã de quarta. Foi o tio dos jovens, Reinaldo Monteiro Ribeiro, quem recebeu a ligação de Juliana avisando que estavam bem. "Foi aquela explosão de alegria, eu já saí correndo atrás do pessoal dos Bombeiros para avisar que eles tinham aparecido", contou Reinaldo, emocionado.

Após o resgate, Jonatan e Juliana receberam alimentação, água e atendimento médico. O tenente Queiroz, do Corpo de Bombeiros, que acompanhou as buscas, enfatizou a urgência: "A cada minuto, a cada hora que se passa numa ocorrência como essa, diante do frio e da chuva, os riscos vão aumentando. Então, é fundamental uma corrida contra o tempo nesse tipo de ocorrência".

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Reflexões e lições aprendidas com a experiência

Apesar do susto, Jonatan disse que não ficou traumatizado e vê a experiência como um aprendizado valioso. "Agora é descansar. E da próxima vez que for fazer isso se preparar mais, indo com mais equipamento, comida, não dar esse mole de ir assim aventureiro. Não ficou um trauma, pra mim foi uma experiência única", afirmou. Os irmãos faziam parte de um grupo de quatro que saiu de Aracruz, no Norte do Espírito Santo, com o objetivo de subir o Pico da Bandeira. Dois desistiram devido ao cansaço, e Jonatan decidiu continuar à noite, com Juliana o acompanhando para que não ficasse sozinho.

O Pico da Bandeira, com 2.892 metros de altitude, é o terceiro ponto mais alto do Brasil e o mais alto da Região Sudeste, localizado no Parque Nacional do Caparaó, na divisa entre Espírito Santo e Minas Gerais. Conhecido por seu nascer do espetacular e trekking de nível médio/difícil, o local apresenta temperaturas que podem chegar a -14 °C, exigindo preparo adequado dos aventureiros.