Dois anos depois, marcas da enchente histórica ainda assombram o principal cartão-postal de Porto Alegre
Quase 24 meses se passaram desde a enchente catastrófica que submergiu partes significativas do Rio Grande do Sul, mas o principal ponto turístico de Porto Alegre continua exibindo as cicatrizes profundas da tragédia. As icônicas passarelas sobre o Lago Guaíba, outrora vibrantes com a vida urbana, permanecem interditadas há mais de seis meses, transformando um símbolo da cidade em um cartão-postal parado no tempo.
Prioridades na reconstrução e os desafios orçamentários
A prefeitura municipal identificou danos estruturais extensos causados pelas águas e bloqueou o acesso público por questões de segurança. Com um orçamento estimado em R$ 7 milhões apenas para a manutenção dessas estruturas, a previsão é que os trabalhos se estendam até 2027. "A enchente afetou a cidade como um todo, inundando 30% do território e causando um impacto de prejuízo público calculado em R$ 12 bilhões", explica Germano Bremm, secretário do Meio Ambiente, Urbanismo e Sustentabilidade de Porto Alegre.
Bremm detalha a estratégia de recuperação: "A escolha foi priorizar a reconstrução das escolas, das unidades básicas de saúde e dos equipamentos de assistência social. Naturalmente, os equipamentos de lazer ficaram para uma fase posterior". Essa decisão reflete a magnitude do desastre e a necessidade de alocar recursos limitados onde são mais urgentes.
Cenário atual: tapumes, marcas e a lenta retomada
O local que antes abrigava bares e restaurantes movimentados, ponto de encontro dos porto-alegrenses, agora está cercado por tapumes. Essas barreiras protegem a população que ainda circula na área da fiação elétrica exposta no interior. Nas paredes, as marcas da enchente permanecem visíveis, registrando o nível da água que ultrapassou 1 metro de altura.
Contudo, há sinais de esperança. Na área onde as pessoas resgatadas desembarcavam, bares e restaurantes começaram a ser reformados. O prefeito Sebastião Melo afirma: "Não tem dinheiro para tudo ao mesmo tempo, mas nós vamos entregar aqui nos próximos 6, 7, 8 meses; esta obra aqui vai estar pronta". A revitalização completa da orla está orçada em aproximadamente R$ 40 milhões, reunindo recursos municipais, federais e empréstimos.
Progressos em outras regiões e adaptações dos comerciantes
Enquanto o coração turístico aguarda, outras áreas da cidade mostram avanços. Na Zona Sul, os calçadões de Ipanema e do Lami estão quase prontos para receber o público. No trecho destinado ao esporte, estabelecimentos reformados em dezembro de 2025 já estão reabrindo suas portas.
Guilherme Sotero, sócio-proprietário de um restaurante, compartilha a experiência difícil: "A gente ficou aí 1 ano e 8 meses sem entrar nenhum real, é complicado". Ele revela as adaptações necessárias: "As tomadas são mais altas, os quadros de luz são mais altos; tudo hoje fica numa altura mais elevada justamente para tentar evitar que a água chegue ali e estrague". Essas mudanças são testemunhas silenciosas de um esforço coletivo para se prevenir contra futuras tragédias, enquanto a cidade lentamente se ergue das águas que a submergiram.