Cemaden já alertava sobre risco muito alto em Juiz de Fora antes da tragédia das chuvas
As autoridades já tinham conhecimento dos riscos extremamente elevados de uma tragédia devido às chuvas em Juiz de Fora, Minas Gerais, inclusive nas áreas onde ocorreram deslizamentos na terça-feira, 24 de dezembro. Documentos produzidos pelo Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) evidenciam essa situação alarmante, mas mesmo com os alertas, a catástrofe não pôde ser evitada.
Chuvas intensas causam mortes e desaparecimentos
A cidade da Zona da Mata mineira foi atingida por um temporal desde a noite de segunda-feira, 23 de dezembro, resultando em 42 mortes confirmadas e pelo menos 17 pessoas desaparecidas até a noite de quarta-feira, 25. A aproximadamente 100 quilômetros dali, em Ubá, outras seis mortes foram confirmadas, segundo dados do governo de Minas Gerais. O volume de chuva foi extraordinário: entre 17h do dia 23 e 5h do dia 24, choveu 220 milímetros em Juiz de Fora, enquanto a média para o mês inteiro é de apenas 170 milímetros.
"Você já tinha acumulado anterior do mês (589 mm) que já tinha saturado o solo. Esse ambiente já estava bastante instável. Quando vem mais 220 milímetros, aí você tem uma condição mais derradeira e o solo não suporta mais", explica a professora Cássia Ferreira, coordenadora do Laboratório de Climatologia e Análise Ambiental da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF).
Juiz de Fora entre as cidades com maior população em risco
Em 2023, o Cemaden realizou um levantamento para identificar os municípios brasileiros mais suscetíveis a deslizamentos, enxurradas e inundações. O objetivo era orientar ações prioritárias do governo federal através do Novo PAC, com foco em mitigação, prevenção e preparação das cidades. Foram identificados 1.942 municípios com pessoas vivendo em áreas de risco, totalizando 8,9 milhões de brasileiros, ou 6% da população.
Juiz de Fora aparece como a nona cidade com mais pessoas nessas condições, com aproximadamente 129 mil residentes em zonas vulneráveis. Todas as cidades acima dela na lista são capitais ou parte de regiões metropolitanas, o que coloca Juiz de Fora como a situação mais crítica no interior do país. Ubá, também afetada pelas chuvas, tinha 7,4 mil pessoas em regiões de risco.
As 10 cidades com mais pessoas em áreas de risco para enchentes e deslizamentos
- Salvador (BA) - 1.217.527
- São Paulo (SP) - 674.329
- Rio de Janeiro (RJ) - 444.893
- Belo Horizonte (MG) - 389.218
- Recife (PE) - 206.761
- Jaboatão dos Guararapes (PE) - 188.026
- Ribeirão das Neves (MG) - 179.314
- Serra (ES) - 132.433
- Juiz de Fora (MG) - 128.946
- São Bernardo do Campo (SP) - 127.648
Segundo Marcelo Seluchi, coordenador geral de Operações e Modelagem do Cemaden, "um desastre ocorre quando a chuva atinge população vulnerável, porque chuva muito volumosa em área plana, desabitada ou bem preparada para resistir não causa desastre".
Alertas frequentes e ocupação inadequada
Juiz de Fora também está entre as 10 cidades com mais alertas emitidos pelo Cemaden em 2025, ficando atrás apenas de Manaus, São Paulo e Petrópolis. Os alertas mais comuns foram para inundações e, principalmente, deslizamento de terra em encostas habitadas. Um documento de 2017 já apontava risco elevado de deslizamentos de rocha na região do Morro do Cristo, próximo ao centro da cidade, onde 15 imóveis foram identificados como ameaçados e outras 79 localidades como áreas de alto risco.
"Observam-se ocupações muito próximas à jusante do maciço, em alta vulnerabilidade", destacava o documento. Seluchi explica que Juiz de Fora é tão vulnerável porque boa parte da população vive em moradias inadequadas em áreas de risco, como encostas ou muito perto de rios. "Quando se constrói nas encostas, a vegetação é suprimida. E a vegetação retarda o processo de deslizamento de terra, porque deixa o solo mais firme e distribui e filtra melhor a precipitação, atuando como espécie de guarda-chuva".
Falta de prevenção e desafios da Defesa Civil
A professora Cássia Ferreira critica a falta de ações preventivas: "Se a gente tivesse um processo de prevenção, esses ambientes talvez estivessem melhor monitorados. Poderia até haver (deslizamentos), mas isso poderia ser reduzido ou minimizado". Ela aponta que a Defesa Civil da cidade não consegue lidar com tantos alertas e acaba atuando de forma paliativa após os deslizamentos, com pouca ação de prevenção.
Ferreira defende a estruturação de um sistema de educação ambiental, instalação de alarmes, sirenes e criação de rotas de fuga para direcionar pessoas que vivem em regiões de risco conhecidas. Seluchi também argumenta que as Defesas Civis municipais precisam estar mais bem preparadas para a frequência crescente de eventos extremos, sugerindo mudanças jurídicas para permitir a retirada compulsória de moradores em áreas de risco quando necessário.
Recursos do PAC e planos de prevenção
Apesar dos indicativos de perigo, a tragédia ocorreu. A lista de municípios em risco serve de base para ações prioritárias no PAC Seleções, que permite a Estados e municípios enviarem propostas para investimentos em obras e equipamentos. Para Juiz de Fora, há quatro projetos em andamento no PAC para prevenção de desastres, sendo três de contenção de encostas.
- Em 2012, a cidade recebeu R$ 40 milhões em recursos para encostas.
- Atualmente, há R$ 18 milhões previstos para conclusão de obras do PAC.
- Em 2023, a prefeitura conseguiu autorização de mais R$ 21 milhões para obras em três bairros, mas a verba ainda não foi liberada devido a pendências documentais.
- Em dezembro de 2025, um novo projeto de R$ 8,5 milhões para encostas foi aprovado no PAC.
O Ministério do Meio Ambiente tem defendido um plano de prevenção a desastres climáticos, especialmente após as tragédias em São Sebastião em 2023 e no Rio Grande do Sul em 2024. A ministra Marina Silva destacou a necessidade de "sair da lógica da gestão do desastre para a gestão do risco" e criar um regime jurídico da emergência climática para municípios suscetíveis.
Perspectivas futuras e mudanças climáticas
As projeções do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas indicam que o Sudeste brasileiro deverá enfrentar chuvas mais concentradas e intensas nos próximos anos, aumentando a ocorrência de fenômenos extremos. A última chuva de grande porte em Juiz de Fora foi em janeiro de 1985, quando choveu quase 600 milímetros em 20 dias. Demorou 41 anos para a cidade viver cenas de horror novamente, mas especialistas alertam que, com as mudanças climáticas, o "tempo de retorno" para situações extremas como essa tende a diminuir.
Seluchi resume: "Não temos terremoto, vulcão, mas pelo tipo de chuva tropical que recebemos na estação chuvosa, a topografia complexa e as áreas de risco, esse é o principal problema do Brasil". A professora Ferreira complementa, criticando a descontinuidade das políticas públicas: "Isso é um processo que tem que ser contínuo, né? Estamos sempre correndo atrás desse prejuízo e não antecipando o prejuízo".



