O continente australiano está sendo assolado por uma das ondas de calor mais severas e prolongadas das últimas décadas, um evento climático extremo que já provoca incêndios florestais de proporções catastróficas e reacende o trauma do devastador "Black Summer". Autoridades meteorológicas emitem alertas máximos diante de temperaturas que beiram os 50 graus Celsius em várias regiões, configurando uma emergência nacional.
Estado de emergência e alerta máximo contra as chamas
O calor abrasador, impulsionado por uma intensa massa de ar quente que se desloca desde a Austrália Ocidental, já atinge quase todo o país. No estado de Victoria, as autoridades decretaram proibição total do uso do fogo e classificaram a sexta-feira, 8 de janeiro de 2026, como um dia de perigo "catastrófico" para incêndios, o nível mais alto em sua escala de risco. Essa classificação indica que eventuais focos de fogo se tornam imprevisíveis, se espalham com velocidade alarmante e são praticamente impossíveis de conter.
Como medida de precaução, cerca de 450 escolas e creches permaneceram fechadas, estradas foram interditadas e serviços de transporte regional foram suspensos. O temor é justificado: bombeiros de diferentes estados já combatem focos ativos. Um incêndio grave no Mount Lawson State Park, no nordeste de Victoria, já consumiu aproximadamente mil hectares e forçou a evacuação de comunidades inteiras. Próximo a Perth, na costa oeste, outro incêndio fora de controle levou à emissão de alertas de emergência.
Impactos severos na saúde, fauna e desigualdades sociais
As consequências desta crise vão muito além das chamas. O sistema de saúde do estado de Victoria entrou em alerta máximo, com os serviços de ambulância operando no nível vermelho, o mais crítico. Hospitais registram um aumento significativo em atendimentos por problemas respiratórios, cardíacos e casos graves de desidratação. Situações trágicas e evitáveis, como crianças deixadas dentro de carros sob o sol escaldante, também foram reportadas.
A crise expõe de forma cruel as desigualdades estruturais. Em Melbourne, moradores de habitações públicas enfrentam temperaturas superiores a 40 °C sem ter acesso a aparelhos de ar-condicionado, um conforto básico em tal cenário, apesar de promessas governamentais de equipar esses prédios apenas até 2027.
A fauna australiana sofre um golpe devastador. Organizações de resgate já contabilizam centenas de mortes de filhotes de morcego devido ao calor extremo e alertam para um risco massivo de desidratação fatal em diversas espécies nativas. Autoridades ambientais pedem que a população coloque vasilhas com água em locais sombreados para ajudar os animais.
A nova normalidade climática: mais quente, mais seca e mais perigosa
Este episódio extremo não é um evento isolado. Ele ocorre após a Austrália registrar, em 2025, seu quarto ano mais quente da história, com a temperatura média nacional ficando 1,23 °C acima do padrão histórico. Cientistas do clima são categóricos em associar o aumento na frequência e intensidade de ondas de calor e megaincêndios às mudanças climáticas provocadas pela emissão de gases de efeito estufa.
Pesquisadores da Universidade de Melbourne analisam que a repetição desses eventos extremos em intervalos cada vez menores é um sinal claro de que o país entrou em uma nova normalidade climática. Esta realidade é intrinsicamente mais quente, mais seca e, consequentemente, mais perigosa. O episódio atual, com cidades como Adelaide marcando 43 °C e Melbourne tendo seu dia mais quente em seis anos (40,9 °C), é um retrato sombrio desse futuro que já se instalou.
Enquanto a população busca refúgio em praias e piscinas públicas, as autoridades reforçam que o pior deste evento de vários dias ainda pode estar por vir. Para os serviços de emergência, que revivem os pesadelos do "Black Summer" de 2019-2020, a batalha contra os elementos está apenas no seu ponto mais crítico.