JN na China: Hangzhou, o polo de inteligência artificial que rivaliza com o Vale do Silício
JN na China: Hangzhou, polo de IA que rivaliza com o Vale do Silício

Nesta terça-feira (28), a viagem especial do Jornal Nacional pela China chegou a Hangzhou, cidade que é o berço de um dos principais concorrentes dos modelos de inteligência artificial americanos. O correspondente Felipe Santana conta que, após deixar Xangai, pegou um trem-bala e em uma hora e meia estava em Hangzhou, diante de um lago que é mais do que uma paisagem: é um símbolo do que significa ser chinês.

O lago de Hangzhou, durante séculos, foi cantado por poetas que o visitavam em qualquer hora do dia. Há poemas sobre o pôr do sol em uma tarde de outono ou sobre a chuva que bate no lago em uma manhã de primavera. Quando o explorador Marco Polo chegou ali no século XIII, ficou impressionado e chamou a cidade de a mais magnífica do mundo. Na época, Hangzhou era a maior cidade do planeta, com 1 milhão de habitantes, enquanto Londres tinha 80 mil. A cidade já contava com ruas pavimentadas, coleta de lixo, esgoto e casas de chá para entretenimento. Marco Polo dedicou um capítulo inteiro de seu livro a essa cidade.

Felipe Santana convida o espectador a imaginar-se como um explorador moderno: “Agora, imagine que você é Marco Polo hoje. Tem todos os motivos para se impressionar também. Não só pela beleza desse lago, mas pelo que foi construído em torno dele. Hangzhou é uma cidade de 10 milhões de habitantes, que transformou a inteligência dos poetas que cantaram esse lago em algo completamente novo, de causar espanto em qualquer explorador moderno: a inteligência artificial”.

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O nascimento da Alibaba e o ecossistema tecnológico

Hangzhou ainda não era um mar de prédios quando um professor de inglês chamado Jack Ma reuniu 17 amigos em seu apartamento e perguntou: “Quem está comigo?”. Juntaram na hora US$ 60 mil, com os quais criou a empresa Alibaba. No início, era um site para conectar fábricas chinesas a clientes no mundo todo. Em menos de dez anos, tornou-se uma das maiores empresas de internet da Ásia e recolocou Hangzhou no mapa da economia mundial.

Jack Ma, porém, não parou por aí. Observando as câmeras de segurança já existentes sobre os semáforos de Hangzhou, teve uma ideia: usar todas aquelas imagens para resolver o problema dos engarrafamentos. Com os dados das câmeras, a Alibaba criou uma inteligência artificial chamada City Brain – o cérebro da cidade. Em parceria com o governo de Hangzhou, o sistema passou a controlar milhares de semáforos em tempo real. Como resultado, Hangzhou deixou o ranking das cidades mais congestionadas da China e tornou-se uma das mais fluidas. Ambulâncias que levavam 15 minutos para atravessar a cidade passaram a chegar em sete.

Hoje, a Alibaba é ainda mais do que isso. É quase impossível viver na China sem o aplicativo Alipay, da Alibaba. Ele é usado não só para compras, mas para tudo: pagar o metrô, chamar um táxi, fazer qualquer pagamento. Muita gente diz que é o sonho de consumo de qualquer empresário americano: o controle total sobre os hábitos de consumo dos cidadãos de um país.

O sucesso da Alibaba criou um ecossistema, um ambiente virtual em que a tecnologia está tão integrada à vida das pessoas e à economia que incentiva o consumo. Os dados de consumo coletados são usados para gerar ideias de novos negócios. Engenheiros que trabalharam na Alibaba saíram para abrir suas próprias empresas. A Universidade de Zhejiang, uma das melhores da China, passou a formar talentos que ficavam em Hangzhou. O governo reservou prédios inteiros vazios, esperando que as startups precisassem de espaço.

Os seis dragões de Hangzhou

Esse ecossistema produziu o que o mundo passou a chamar de os seis dragões de Hangzhou: seis empresas que surgiram praticamente uma atrás da outra e redefiniram a capacidade tecnológica da China. Entre elas, robôs que dançam para bilhões de pessoas na maior transmissão de TV do mundo, o primeiro grande jogo de videogame chinês a conquistar o mercado global, interfaces que leem o cérebro humano e design em 3D controlado por inteligência artificial.

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DeepSeek: a inteligência artificial que abalou o mercado

Em um prédio, no 12º andar, fica a sede do DeepSeek – sem placa, com 200 funcionários. O que eles construíram foi algo grande: uma inteligência artificial muito parecida com o ChatGPT, mas que custou uma fração do preço. A maior diferença, porém, não é o valor. Eles desenvolveram um novo sistema, um novo modo de fazer a máquina funcionar. Em vez de cérebros de IA que gastam muitos recursos e energia para processar volumes de dados sobre todo tipo de assunto, criaram cérebros menores, focados em temas específicos – os chamados especialistas. Eles estão conectados por um sistema central generalista, mas não precisam trocar informação toda hora, o que reduz custos e torna a operação mais barata.

O surgimento do DeepSeek fez com que empresas americanas perdessem US$ 1 trilhão em valor de mercado da noite para o dia – a maior destruição de valor em um só dia na história dos mercados financeiros.

Felipe Santana então faz um teste: com um exemplar do “Pequeno Livro Vermelho”, de citações de Mao Tsé-Tung, pergunta ao DeepSeek sobre ele. O livro, um dos mais impressos da história – mais de 1 bilhão de cópias –, foi usado para explicar a ideologia vigente na China comunista. Ao pedir mais informações, o DeepSeek simplesmente pede para trocar de assunto. O correspondente então pergunta ao ChatGPT por que o DeepSeek não fala sobre o livro. O ChatGPT responde: “A inteligência artificial chinesa, seguindo diretrizes governamentais, evita o tema porque ele toca em aspectos delicados da história do país”.

Dois sistemas em confronto

O teste escancara como há dois sistemas. Nos Estados Unidos, a liberdade das empresas e a competição são incentivadas. Na China, por trás da inovação, há um sistema controlado e orquestrado pelo governo. O argumento forte do Partido Comunista é que isso protege a soberania, porque, quando usamos inteligência artificial ou redes sociais americanas no Brasil, as empresas usam os dados do nosso comportamento para treinar seus algoritmos. Para os chineses, isso é mineração de dados pirata, colonialismo cibernético. Por isso, o país se empenha em desenvolver sua própria versão assim que uma tecnologia nova é inventada, principalmente se for nos Estados Unidos.

O direcionamento do governo é muito forte: há a obrigação de produzir de forma mais eficiente – uma versão mais barata do ChatGPT, por exemplo. Os americanos, por outro lado, reclamam que os chineses fazem isso pela porta dos fundos, copiando tecnologias americanas, mas com menos liberdade de discurso. Por isso, o DeepSeek, que assustou o Vale do Silício, não consegue falar sobre o homem que fundou o país que o criou.

Mesmo Jack Ma, que foi o homem mais rico da China depois de criar a Alibaba, um dia fez um discurso crítico ao Partido Comunista e desapareceu por meses. Agora, mora no Japão, vive discretamente. Concentrou mais poder do que permitido e, da forma mais dura, entendeu onde ficam os limites da capital chinesa da inovação.

Na quarta-feira (29), o Jornal Nacional chega à capital Pequim, o coração político da China.