Três meses após a tempestade que devastou Juiz de Fora e deixou 66 mortos, os moradores da rua Dalila Lery, no bairro Industrial, voltaram a se unir. Desta vez, o mutirão foi para decorar a rua para a Copa do Mundo. Na expectativa pelos primeiros jogos da seleção brasileira, o local ganhou o tradicional colorido verde e amarelo. A mobilização ocorreu no último fim de semana e incluiu um churrasco de confraternização.
Mobilização e união
Isabela Guimarães, de 30 anos, uma das organizadoras, explicou que a ideia surgiu há cerca de um mês. “Comprei os itens, marcamos e decidimos fazer a pintura na semana passada. A gente decidiu fazer também um churrasco para confraternizar, já que seriam muitas horas de trabalho. Começamos por volta das 9h, terminamos umas 18h e depois começamos o churrasco, que foi até 20h”, disse.
Para Isabela, a decoração foi um momento de interação entre os vizinhos, que ainda estão fragilizados pela tragédia. “Aqui na nossa rua todos os moradores perderam tudo. Na casa do meu avô, por exemplo, a água chegou a 1,5 metro. No fim da rua, ela chegou a quase dois metros. Foi muito triste, mas a gente enfrentou tudo com muita união, com um ajudando o outro, seja na coleta de donativos, seja na limpeza da casa, na retirada dos entulhos”, explicou.
Ressignificando o trauma
A organizadora destacou a importância de ressignificar o ocorrido, especialmente para as crianças. “A gente tá tentando ressignificar, principalmente para as crianças, que, infelizmente, estão traumatizadas. Algumas estão fazendo até acompanhamento psicológico, porque não foi fácil que a gente passou. Foram dias muito difíceis”.
Além dos pequenos, a decoração contou com a ajuda de moradores mais velhos, como o senhor Selim, avô de Isabela, e outros idosos. “O meu avô tem 84 anos e ficou dois meses fora de casa. Ele voltou pra casa há poucos dias, já que a casa dele precisou de uma reforma extrema, de nível de tocar a porta e refazer as paredes. Ele acompanhou a pintura com a gente, assim como outras senhorinhas. Uma delas fez almoço para todo mundo. Foi um dia inesquecível, e as crianças estão enlouquecidas com tudo que a gente viveu”.
Expectativa para os jogos
Conforme Isabela, vizinhos de outras ruas também estão se mobilizando para aumentar a decoração pelo bairro. A expectativa é de novos encontros entre os moradores, para troca de figurinhas do álbum da Copa e para acompanhar os jogos. Um projetor será instalado em uma das casas para a estreia da seleção. “A gente tá animando de se encontrar no dia do primeiro jogo do Brasil, inclusive porque sobrou carne do churrasco. Também compramos chapéus e bandeirinhas, que estão todas guardadas para todo mundo ver o jogo caráter”.
A tragédia de fevereiro
Na noite do dia 23 de fevereiro, a chuva intensa que atingiu a cidade deixou 65 mortos. Um idoso de 77 anos foi socorrido nos escombros, ficou internado por cerca de um mês, mas também faleceu, elevando o número de vítimas para 66. Várias ruas ficaram interditadas e outras totalmente evacuadas, sob risco de novos deslizamentos e soterramentos, deixando quase 10 mil desalojados e desabrigados. Um rastro de destruição foi deixado em diferentes bairros, como Parque Burnier (com 22 mortos), Três Moinhos, Paineiras, Cerâmica, Nossa Senhora de Lourdes e Carlos Chagas.
No bairro Industrial, onde a pintura foi feita, o córrego Humaitá transbordou e deixou centenas de casas submersas. Não houve mortos no bairro, mas vários moradores precisaram deixar os imóveis, alguns com auxílio de barco. A Prefeitura de Juiz de Fora decretou estado de calamidade, que segue até agosto.



