ANP confirma petróleo em poço no CE; próximos passos incluem análise de viabilidade
ANP confirma petróleo em poço no CE; próximos passos

Confirmação do petróleo no Ceará

A Agência Nacional do Petróleo (ANP) confirmou que o líquido escuro encontrado em um sítio no interior do Ceará é, de fato, petróleo cru. A descoberta ocorreu quando o agricultor Sidrônio Moreira perfurava o solo de sua propriedade em busca de água, no município de Tabuleiro do Norte. A família comunicou o possível achado à ANP em julho de 2025, e a equipe da agência visitou o local sete meses depois, em 12 de março de 2026, após o caso ser divulgado pelo g1. Em 19 de maio, a ANP concluiu os testes físico-químicos, cujos resultados confirmaram a natureza do material.

Resultados dos testes

De acordo com a ANP, o resultado foi enviado ao proprietário do terreno na quarta-feira (20) e também encaminhado à Secretaria do Meio Ambiente e Mudança do Clima do Estado do Ceará (SEMACE), que avaliará a necessidade de medidas ambientais. A agência instaurou um processo administrativo para analisar a área e seu contexto geológico, visando estudar o tamanho das reservas e a viabilidade da exploração. No entanto, a ANP destacou que não há prazo estabelecido para a conclusão da avaliação técnica e que, mesmo após sua conclusão, não há garantia de exploração comercial.

Descoberta por acaso

A substância semelhante a petróleo foi encontrada em novembro de 2024, quando Sidrônio Moreira perfurava o solo em busca de água para abastecimento da família, que não possui água encanada. A ideia era construir um poço artesiano. Em vez de água, jorrou um líquido preto, denso, viscoso e com cheiro de combustível. A família procurou o Instituto Federal do Ceará (IFCE), que iniciou as investigações. Testes laboratoriais indicaram que a amostra tinha características físico-químicas semelhantes ao petróleo de jazidas da região vizinha, no Rio Grande do Norte. A confirmação oficial, porém, só poderia ser dada pela ANP.

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A ANP orientou que a área deve ser isolada e que os moradores evitem contato com o material, devido a possíveis riscos. Técnicos afirmaram que ninguém mais pode acessar o poço e que outras amostras não devem ser retiradas por enquanto. Enquanto aguardava o laudo, a família enfrentava problemas de acesso à água. No fim de março, a família de Sidrônio voltou a receber água de uma adutora antiga da cidade, que foi reforçada após a repercussão do caso.

O agricultor poderá lucrar?

Mesmo com a confirmação de que o líquido é petróleo, Sidrônio não será dono do material, pois a Constituição Federal determina que o subsolo e suas riquezas, incluindo petróleo e gás, são propriedade e monopólio da União. No entanto, Sidrônio poderá obter retorno financeiro caso a área passe por exploração e produção comercial no futuro. O proprietário da terra tem direito a receber um percentual, que pode chegar a até 1%, dependendo de diversos fatores a serem avaliados. Primeiro, a agência precisa analisar se vale a pena explorar a bacia. Outros achados semelhantes foram descartados por serem acúmulos pequenos.

O que se sabe até agora?

A ANP visitou o sítio pela primeira vez em 12 de março de 2026. Ao g1, a equipe afirmou que o achado causou espanto, pois é incomum que líquido semelhante a petróleo jorre de uma profundidade considerada rasa (40 metros). Ildeson Prates Bastos, superintendente da ANP, explicou que existe o processo de exsudação natural, mas que não era o caso. Na primeira visita, os agentes verificaram o poço e conversaram com a família. Os técnicos não colheram amostra no local, mas levaram uma amostra feita pelo IFCE.

Adriano Lima, engenheiro químico do IFCE, informou que análises preliminares já realizadas incluíram viscosidade, densidade, espectroscopia de infravermelho (FTIR) e ponto de fulgor. Os resultados indicaram comportamento extremamente similar aos óleos da região. No entanto, apenas a ANP pode dar o resultado definitivo. Para isso, outras análises são necessárias, como medição do teor de compostos saturados, aromáticos, resina e asfaltenos, além da verificação da origem geológica do material. Uma amostra também foi enviada à Universidade Federal do Ceará (UFC), que possui laboratório especializado.

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Próximos passos

Moisés Vieira, representante da ANP, explicou que a orientação principal é isolar a área e evitar contato com o material. Os proprietários não devem acessar o poço nem permitir a aproximação de terceiros. Agora, os técnicos da ANP encaminharão uma amostra ao laboratório da agência para análises químicas detalhadas. Um processo foi aberto para apurar oficialmente a notificação, mas não há prazo estimado para conclusão. O tempo dependerá da logística de transporte da amostra e da complexidade dos testes. Moisés ressaltou que o petróleo só pode ser explorado mediante contrato com a União e empresas especializadas, e que o proprietário da terra não tem direito ao material.

Problema da água continua

Enquanto espera a resposta da ANP, a falta de água encanada ainda afeta a rotina de Sidrônio e sua família. Eles dependem de uma adutora, carros-pipa enviados pela prefeitura e compram água mineral. A renda familiar vem das aposentadorias de Sidrônio e sua esposa, Maria Luciene, e do trabalho no campo, com venda de animais, feijão e milho. O agricultor, de 63 anos, afirma que seu interesse é apenas resolver o problema da água. “Eu não quero riqueza, quero dinheiro para sobreviver. O que vale é a saúde da pessoa”, disse ele.

Relembre o caso

A substância foi encontrada em novembro de 2024, quando Sidrônio perfurava o solo para abastecer animais no Sítio Santo Estevão. Um vídeo gravado pela família mostra o momento em que o líquido escuro emerge do buraco, e Sidrônio chega a comemorar, pensando ser água. Semanas depois, a família descobriu que poderia ser petróleo. Tabuleiro do Norte fica a cerca de 210 km de Fortaleza, na divisa com o Rio Grande do Norte, próximo à Bacia Potiguar, área de exploração de petróleo.