Manobrista relata falta de treinamento e pressão do dono em caso de morte por intoxicação em academia
Manobrista detalha falta de EPI e ordens do dono em morte em academia

Manobrista detalha falta de preparo e comunicação do dono em caso fatal de intoxicação

Severino José da Silva, de 43 anos, manobrista da academia C4 Gym no Parque São Lucas, prestou depoimento nesta terça-feira (10) no 42° Distrito Policial, revelando informações cruciais sobre as circunstâncias que levaram à morte da professora de natação Juliana Faustino Bassetto, de 27 anos. O funcionário, responsável pela manutenção da piscina onde o incidente ocorreu no sábado (7), descreveu uma série de falhas estruturais e de comunicação que preocupam as autoridades.

Comunicação preocupante e evasão inicial

Em seu relato à polícia, Severino contou que recebeu uma ligação do proprietário da academia, identificado como Celso, no domingo (8), um dia após a tragédia. "Vai, sai de casa que a polícia está batendo na porta de todo mundo", teria dito o dono do estabelecimento, segundo o depoimento. Esta comunicação ocorreu após o funcionário tentar contato imediato no sábado, quando percebeu que as pessoas estavam passando mal durante a aula de natação.

O retorno de Celso só aconteceu às 14h11, quando a academia já havia sido completamente esvaziada. Ao descrever a situação, Severino ouviu do proprietário apenas "Paciência", em uma ligação que teria ocorrido às 10h30 do dia seguinte ao incidente. Esta resposta lacônica diante de uma emergência de saúde pública chamou a atenção dos investigadores.

Ausência total de preparo técnico e equipamentos

Um dos aspectos mais alarmantes do depoimento foi a revelação de que Severino, apesar de ser responsável pela manutenção química da piscina há aproximadamente três anos, nunca recebeu treinamento adequado, habilitação técnica ou equipamentos de proteção individual (EPIs) para manusear os produtos químicos necessários. Registrado formalmente apenas como manobrista, ele acumulava funções por determinação direta do proprietário.

O funcionário explicou que aprendeu os procedimentos com o antigo manobrista da academia, seguindo uma rotina precária: medir os níveis da água, fotografar o resultado e enviar a imagem a Celso, que então indicava quais produtos aplicar e em qual quantidade através de mensagens. Esta falta de preparo era, segundo Severino, de pleno conhecimento do proprietário.

Sequência de eventos no dia da tragédia

De acordo com o relato detalhado, na quinta-feira anterior ao incidente, Severino já havia comunicado ao proprietário que a água da piscina estava turva. Na sexta-feira, após a última aula de natação, recebeu ordem para aplicar apenas cloro na piscina grande. No sábado, dia do incidente, com a água ainda apresentando aparência turva e alunos dentro da piscina, Celso solicitou nova testagem.

O proprietário então orientou a aplicação de seis a oito medidas do produto HIDROALL Hiperclor 60, um novo tipo de cloro que estava sendo testado no estabelecimento. Severino afirmou que preparou a solução em um balde com água da própria piscina, adicionou seis medidas do produto e deixou o recipiente a cerca de dois metros da borda da piscina antes de retornar às suas funções como manobrista.

Reação em cadeia e sintomas de intoxicação

Aproximadamente dez minutos depois, o funcionário percebeu uma movimentação incomum na academia e sentiu um forte cheiro de cloro. Ao investigar, encontrou uma mulher sentada na recepção sendo amparada pelo marido - que posteriormente se revelou ser Juliana Faustino Bassetto - e um pai socorrendo seu filho adolescente. No total, seis pessoas apresentaram sinais de intoxicação, incluindo a professora que viria a falecer, seu marido e o adolescente.

O próprio Severino relatou ter desenvolvido dificuldade respiratória, irritação na garganta e nos olhos. Professores foram alertados e retiraram imediatamente todos os alunos da piscina. Uma viatura da Guarda Civil Metropolitana que passava pela rua foi acionada para auxiliar no socorro, enquanto a recepcionista da academia tentou contato com o Samu e o Corpo de Bombeiros.

Falhas no socorro e ações posteriores

Segundo o depoimento, nenhuma viatura de socorro especializado compareceu ao local, e as vítimas acabaram sendo transportadas por meios próprios para receber atendimento médico. Após a evacuação, Severino retirou o balde com o produto químico da área da piscina e o levou para a área externa do estabelecimento, que foi então fechado.

O manobrista reforçou que o HIDROALL Hiperclor 60 era o único produto aplicado por ele naquele dia, adotado recentemente por decisão do proprietário. Ele mencionou ainda que, há cerca de um ano, quando a piscina apresentou problemas, um técnico especializado foi contratado para regularizar a situação da água. O profissional ofereceu serviços de manutenção permanentes, mas o dono recusou e manteve a responsabilidade com Severino.

Contexto investigativo e posicionamentos

As autoridades policiais trabalham com a hipótese de que a manipulação de produtos químicos próximo à área de aula, em um espaço fechado com pouca ventilação, pode ter causado a intoxicação das vítimas. Os donos da academia também são esperados para prestar esclarecimentos, embora seus advogados tenham renunciado ao caso temporariamente.

Após seu depoimento, Severino fez uma breve declaração à imprensa, acompanhado de sua advogada: "Tenho a declarar que sou funcionário da empresa, sigo ordens, e meu celular foi apreendido para averiguações. É isso que tenho para falar no momento."

Nas redes sociais, a direção da C4 Gym emitiu um comunicado lamentando "profundamente o ocorrido" e afirmando que prestou "imediato atendimento a todos os envolvidos", mantendo contato direto com alunos e familiares. A empresa destacou que está "colaborando integralmente com as autoridades competentes" e que possui todos os documentos de regularidade, incluindo Auto de Vistoria do Corpo de Bombeiros, registro no Conselho Regional de Educação Física e alvará da Vigilância Sanitária válido desde 2023.

A Prefeitura de São Paulo já iniciou processo de cassação da licença de funcionamento da academia, enquanto a investigação policial continua apurando todas as circunstâncias que levaram a esta tragédia evitável.