Manobrista presta depoimento sobre morte em academia após manipular produtos químicos
O manobrista responsável pela manutenção da piscina onde uma aluna de natação morreu prestou depoimento à polícia nesta terça-feira (10), revelando detalhes preocupantes sobre as condições de trabalho. Severino José da Silva, de 43 anos, compareceu ao 47° Distrito Policial do Parque São Lucas, em São Paulo, para relatar sua versão dos fatos que culminaram na tragédia do último sábado (7).
Ordens por WhatsApp e acúmulo de funções
Segundo o depoimento obtido pela TV Globo, Severino trabalha há aproximadamente três anos na Academia C4 Gym com registro formal como manobrista. No entanto, ele acumulava funções que incluíam abrir a unidade e realizar a manutenção das piscinas, seguindo orientações enviadas por mensagens de WhatsApp de um dos sócios, identificado como Celso.
O procedimento consistia em:
- Medir os níveis da água da piscina
- Fotografar o resultado dos testes
- Enviar as imagens para Celso
- Aplicar os produtos químicos conforme as instruções recebidas
Falta total de preparo e equipamentos de segurança
Em seu relato à polícia, Severino foi categórico ao afirmar que nunca recebeu treinamento específico, habilitação técnica ou equipamentos de proteção individual (EPIs) para manusear os produtos químicos, apesar de realizar essa função rotineiramente. Ele aprendeu o procedimento observando o antigo manobrista da academia, que já executava as mesmas tarefas.
O funcionário destacou que essa situação era de pleno conhecimento do proprietário da academia, que continuou determinando as atividades sem fornecer as condições mínimas de segurança.
Sequência de eventos que levou à tragédia
Na quinta-feira anterior ao incidente, Severino percebeu que a água da piscina estava turva e comunicou o fato ao proprietário. Na sexta-feira, após a última aula de natação, recebeu ordem para aplicar apenas cloro na piscina grande.
No sábado, com a água ainda apresentando aspecto turvo, Celso solicitou nova testagem e orientou a aplicação de seis a oito medidas do produto HIDROALL Hiperclor 60, mesmo com alunos dentro da piscina. Severino preparou a solução em um balde com água da própria piscina, adicionou seis medidas de cloro e deixou o recipiente a cerca de dois metros da borda antes de retornar às suas funções como manobrista.
Reação em cadeia e dificuldades no socorro
Aproximadamente dez minutos depois, o funcionário percebeu movimentação incomum na academia e sentiu forte cheiro de cloro. Ao investigar, encontrou uma mulher sentada na recepção sendo amparada pelo marido e um pai socorrendo seu filho adolescente. Os professores foram alertados e retiraram imediatamente todos os alunos da piscina.
O próprio Severino relatou ter apresentado dificuldade respiratória, irritação na garganta e nos olhos. Uma viatura da Guarda Civil Metropolitana que passava pela rua foi acionada para auxiliar no socorro, enquanto a recepcionista da academia ligou para o Samu e para o Corpo de Bombeiros.
Segundo o depoimento, nenhuma viatura de socorro especializado compareceu ao local, e as vítimas foram transportadas por meios próprios para receber atendimento médico.
Tentativas de contato e resposta do proprietário
Severino afirmou que tentou entrar em contato com Celso assim que percebeu que as pessoas estavam passando mal, mas não obteve resposta imediata. O retorno só ocorreu às 14h11, quando o local já havia sido completamente evacuado. Ao relatar o ocorrido, o proprietário teria respondido apenas: "paciência".
O manobrista reforçou que o único produto aplicado por ele foi o HIDROALL Hiperclor 60, adotado recentemente por decisão do proprietário, que afirmou estar testando um novo tipo de cloro. Anteriormente, era utilizado outro produto químico para a manutenção da piscina.
Consequências do incidente
A professora Juliana Faustino Bassetto, de 27 anos, faleceu após participar de uma aula de natação na academia. Outros cinco alunos, incluindo um adolescente, também apresentaram sinais de intoxicação e necessitaram de atendimento médico.
As autoridades suspeitam que a manipulação de produtos químicos próximo à área de aula, combinada com o espaço fechado e com pouca ventilação, tenha causado a contaminação que afetou as pessoas presentes.
Posicionamento da academia e andamento das investigações
Os advogados que representavam a academia renunciaram ao caso, e nenhum outro representante legal da C4 Gym foi localizado para comentar a situação até o momento. Nas redes sociais, a direção da empresa emitiu uma nota lamentando profundamente o ocorrido e afirmando que prestou atendimento imediato a todos os envolvidos.
A empresa declarou que mantém contato direto com alunos e familiares para oferecer suporte necessário e que está colaborando integralmente com as autoridades competentes. Sobre a regularidade do estabelecimento, a academia informou possuir Auto de Vistoria do Corpo de Bombeiros (AVCB), regularidade junto ao Conselho Regional de Educação Física (CREF) e alvará da Vigilância Sanitária válido desde 2023.
Os donos da academia também são esperados para prestar esclarecimentos à polícia, que continua investigando todas as circunstâncias do caso que chocou a comunidade do Parque São Lucas e levantou questões importantes sobre segurança em estabelecimentos de uso coletivo.