MPF determina inquérito sobre colisão de navio com balsas no Porto de Santos
MPF abre inquérito sobre colisão de navio em Santos

MPF determina abertura de inquérito para investigar colisão entre navio e balsas em Santos

O Ministério Público Federal (MPF) determinou a abertura de um inquérito para apurar as circunstâncias do acidente envolvendo o navio cargueiro Seaspan Empire, que colidiu com duas balsas no dia 16 de fevereiro no Porto de Santos. O episódio trouxe à tona um problema recorrente na principal via marítima do país: a falta crônica de vagas de atracação e a necessidade premente de uma gestão mais eficiente do fluxo de embarcações.

Falta de espaço e colisão no retorno

O cargueiro chegou a entrar no porto, mas precisou deixar o canal porque não havia espaço disponível no terminal para atracar, mesmo estando devidamente autorizado. No momento do retorno, ocorreu a colisão que agora é alvo de investigação do MPF. Especialistas ouvidos pela reportagem afirmam que este episódio reforça a urgência na implantação do Sistema de Gerenciamento e Informações do Tráfego de Embarcações (VTMIS), tecnologia que permite acompanhar, orientar e ordenar o movimento de navios em tempo real.

Porto operando no limite da capacidade

O Porto de Santos é o maior do Hemisfério Sul, com movimentação de quase 200 milhões de toneladas por ano. São mais de 50 terminais que utilizam o mesmo canal de navegação, criando um cenário de constante pressão operacional.

"Existe uma oportunidade que deveria estar sendo tratada com muito foco e prioridade: a implantação do VTMIS. Não é admissível que não tenha um sistema próprio", apontou o engenheiro civil e mestre em Engenharia de Transportes pelo Instituto Militar de Engenharia, Luis Claudio Montenegro.

Montenegro ressaltou que Santos já opera no limite máximo de sua capacidade: "Há um enorme potencial de atração de cargas, vindas de uma área de influência que abrange praticamente todo o Brasil. Porém, por mais que se ampliem as estruturas portuárias, como cais, armazéns e áreas de armazenagem, os acessos terrestres e marítimos continuarão pressionados, operando no limite da capacidade".

VTMIS: tecnologia presente apenas em Vitória

O especialista destacou que o único porto brasileiro com VTMIS completo em funcionamento é o de Vitória, no Espírito Santo. Para ele, Santos deveria ter máxima prioridade na implementação deste sistema, pois a "falta de foco" nesse tema abre espaço para incidentes ou acidentes como o que ocorreu com o Seaspan Empire.

Prejuízos bilionários e gargalos operacionais

O gargalo da capacidade portuária também preocupa especialistas. Segundo Montenegro, o Porto de Santos perde cerca de R$ 3 bilhões por ano em multas de sobre-estadia de navios, quando embarcações ficam mais tempo que o contratado nos terminais.

"Esse é um recurso que não se recupera. Trata-se de dinheiro pago simplesmente por falta de capacidade operacional", afirmou o engenheiro.

O especialista em projetos logísticos Marcos Fernandez Nardi concorda com esta avaliação. Ele afirma que o número de terminais em Santos é pequeno para o porte do porto e que a retaguarda logística apresenta deficiências significativas.

"Muitas vezes, a ineficiência operacional de um determinado terminal, especialmente quando falamos de granéis, já compromete as janelas dos navios", explicou Nardi.

APS aguarda TCU para implantar sistema

A Autoridade Portuária de Santos (APS) afirma que concluiu sua parte do procedimento licitatório para implantação do VTMIS. Agora, diz que depende de resposta do Tribunal de Contas da União (TCU) a uma consulta realizada sobre o sistema para poder contratar a empresa responsável pela implementação.

Além disso, a APS ressalta que "o projeto foi estruturado com prazo total de cinco anos, sendo dois anos destinados à implantação da infraestrutura física e tecnológica do sistema e três anos correspondentes ao período de Suporte Logístico Integrado (SLI), compreendendo a manutenção e a consolidação das capacidades operacionais".

Como funciona a validação de entrada de navios

A APS explica que valida a programação de entrada dos navios quando a embarcação conta com todas as autorizações necessárias:

  • Capitania dos Portos
  • Polícia Federal
  • Receita Federal
  • Anvisa
  • Vigiagro

"No cais público, a APS verifica se a metragem do navio está adequada ao espaço livre disponível no berço. Nos terminais privados (TUPs), o próprio terminal valida essa condição", acrescenta a autoridade que administra o cais santista.

O caso do navio Seaspan Empire aconteceu no TUP operado pela DP World. Após estas etapas, a APS detalha que concede autorização para que a manobra da embarcação possa ser agendada junto à Praticagem. O agente marítimo, então, ajusta com a Praticagem o horário em que a manobra será iniciada.