Microscópio barato criado por brasileiro auxilia diagnóstico de malária na Nigéria
Microscópio barato criado por brasileiro auxilia diagnóstico de malária

Um microscópio de baixo custo, criado pelo brasileiro André Maia Chagas, tem contribuído significativamente para expandir o diagnóstico da malária em uma região vulnerável da Nigéria. O equipamento utiliza componentes adquiridos em plataformas de comércio eletrônico e funciona conectado a um smartphone.

Origem da iniciativa

Segundo o pesquisador da Universidade de Sussex e especialista em Projetos Estratégicos do Manacás da PUC-Campinas, a proposta surgiu a partir de uma necessidade concreta do estado de Yobe, localizado no nordeste da Nigéria. Essa região é marcada por alta incidência de malária e carência de infraestrutura em saúde. Até o momento, 30 equipamentos foram construídos localmente e distribuídos entre hospitais e unidades de atenção primária.

"Os aparelhos não foram enviados prontos do Brasil. As próprias equipes locais compraram os componentes pela internet e realizaram a montagem durante os treinamentos, reduzindo os custos de importação, facilitando a manutenção e gerando independência tecnológica nas regiões atendidas", explica Chagas.

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Custo e montagem

O microscópio tem valor aproximado de US$ 85 (cerca de R$ 430) e pode ser montado em até uma hora após a impressão das peças estruturais em 3D. Desenvolvido com o conceito de hardware aberto, seus projetos, instruções de montagem e lista de materiais são disponibilizados gratuitamente para que qualquer pessoa possa reproduzi-lo.

"O objetivo era criar um equipamento funcional para uma necessidade específica, com o menor custo possível. Pesquisa pública, financiada com dinheiro público, deveria virar bem público", afirma o especialista.

Estrutura e funcionamento

André, que iniciou o trabalho na Universidade de Sussex em parceria com a Universidade de Yobe, destaca que o aparelho possui componentes de fácil aquisição: uma câmera USB de 12 megapixels, lentes disponíveis em plataformas online, parafusos comuns e uma estrutura produzida em impressora 3D. A câmera é conectada ao smartphone, que fornece energia ao sistema e serve como visor para análise das imagens. Amostras de sangue em lâminas são acopladas ao equipamento, e com a resolução disponível é possível identificar o parasita causador da malária dentro das células.

No entanto, ter o equipamento não é suficiente por si só. O diagnóstico é realizado por profissionais de saúde treinados, capazes de identificar e interpretar corretamente a presença do parasita nas imagens.

Impacto e outras aplicações

A iniciativa busca não apenas ampliar o acesso ao diagnóstico, mas também acelerar o início do tratamento. As unidades de saúde da região atendem a população de forma descentralizada e, em muitos casos, contam com testes rápidos, como os usados para Covid-19, que nem sempre apresentam alta precisão. Segundo Chagas, a Organização Mundial da Saúde (OMS) considera a análise microscópica de amostras de sangue o método padrão para o diagnóstico da malária.

Além da malária, o microscópio pode ser utilizado para outros exames que dependem de microscopia, como o exame de Papanicolau, possibilitando a detecção de câncer de colo de útero e outras doenças. Por ser digital, o equipamento também abre caminho para a criação de bancos de dados e sistemas de análise automatizada. "Com essas imagens, a gente consegue acompanhar a evolução da doença em tempo real, e no futuro, treinar sistemas de detecção automática para ajudar na triagem e monitoramento epidemiológicos", afirma.

Validação científica

O microscópio já está em uso na Nigéria e passa atualmente por um processo de validação científica, com comparações em relação a equipamentos tradicionais. "O microscópio ainda está em fase de validação, mas ele já consegue gerar imagens das células vermelhas e visualizar o parasita da malária. Como o projeto foi baseado no OpenFlexure, uma tecnologia de microscópio aberto que já passou por validação científica, a expectativa é validar esse equipamento da mesma forma", completa.

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