Greve de rodoviários paralisa São Luís e deixa milhares sem transporte público
A greve dos rodoviários em São Luís, que começou nesta sexta-feira (13), causou transtornos significativos para milhares de usuários do transporte público na capital maranhense. Com a paralisação completa dos ônibus urbanos, a população enfrenta dificuldades extremas para se deslocar pela cidade, em uma situação que se repete menos de dois meses após a última interrupção do serviço.
Impacto direto na rotina dos passageiros
Quem depende do transporte público para trabalhar, ir a hospitais ou cumprir outros compromissos essenciais está tendo que buscar alternativas improvisadas. Sem os ônibus urbanos circulando, muitos passageiros estão recorrendo aos ônibus interurbanos, o que tem aumentado consideravelmente o tempo de deslocamento e criado filas extensas nos terminais.
Dona Maria José, vendedora que trabalha normalmente dentro do terminal, precisou se adaptar à situação: "Para garantir minha sobrevivência, eu tive que trabalhar fora do terminal", afirmou ela, exemplificando como a paralisação afeta diretamente a subsistência de trabalhadores informais.
Para muitos passageiros, a busca por transporte se transformou em verdadeira batalha matinal. "Quem já trabalha com dificuldades agora precisa lidar com custos extras para se deslocar", contou um usuário frustrado. Alguns relataram ter que recorrer a aplicativos de transporte como Uber, que ficaram mais caros e escassos devido à alta demanda repentina.
Motivação da greve: descumprimento de acordo salarial
A atual paralisação foi motivada pelo descumprimento do acordo de reajuste salarial estabelecido judicialmente no início do ano. Em 30 de janeiro, os ônibus já haviam parado devido à falta de acordo entre rodoviários e empresários sobre aumento salarial. Naquela ocasião, a greve durou oito dias até que a Justiça determinou um reajuste de 5,5%.
Agora, os trabalhadores voltam às ruas porque esse acordo não está sendo cumprido. Segundo o Sindicato dos Rodoviários, a categoria continua recebendo o salário antigo de R$ 2.715,50, faltando o acréscimo de R$ 151,52 correspondente ao reajuste determinado. Embora o pagamento não esteja tecnicamente atrasado, os rodoviários não receberam o valor conforme a determinação do Tribunal Regional do Trabalho (TRT).
Cerca de 3.000 rodoviários trabalham no sistema urbano de São Luís, e a greve afeta o serviço desde o primeiro dia, com os trabalhadores afirmando que a paralisação só terminará com o pagamento integral do aumento salarial.
Contexto de paralisações recorrentes
Esta não é uma situação isolada na capital maranhense. Nos últimos seis anos, São Luís enfrentou pelo menos dez paralisações no sistema de transporte público, provocadas principalmente por impasses salariais e disputas entre empresas e rodoviários. Em 2022, a cidade registrou a maior greve do período, que se estendeu por impressionantes 43 dias.
A última paralisação do sistema urbano, ocorrida há menos de dois meses, também durou oito dias. Os ônibus voltaram a circular após reunião com o Ministério Público do Maranhão (MP-MA), empresários e a Prefeitura de São Luís, sob garantia do pagamento dos salários atrasados.
Investigação do Ministério Público
A paralisação atual ocorre enquanto o Ministério Público do Maranhão conduz um inquérito civil que apura falhas na prestação do serviço, paralisações recorrentes, problemas estruturais e possíveis irregularidades na gestão e operação do sistema de transporte da capital.
Os focos da investigação incluem:
- O Município de São Luís
- O Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros (SET)
- Os consórcios Central, Via SL e Upaon-Açu
- A empresa Viação Primor Ltda.
Como providências iniciais, o MPMA solicitou à Secretaria Municipal de Trânsito e Transportes (SMTT) e ao SET uma série de documentos, incluindo informações sobre todas as linhas do sistema, itinerários, consórcios, concessionárias e frotas, planilhas de custos do transporte, valores de subsídios tarifários pagos entre 2021 e 2026, número de novos ônibus incorporados ao sistema no mesmo período, e medidas adotadas pela Prefeitura para corrigir falhas na prestação do serviço.
Posicionamentos divergentes
A Prefeitura de São Luís, através da SMTT, emitiu nota afirmando que vem cumprindo regularmente todas as suas obrigações financeiras com o sistema de transporte público, com repasses de subsídios às empresas sendo realizados em dia, sem deduções ou atrasos. A secretaria atribui a greve ao não cumprimento, por parte das empresas de ônibus, da decisão judicial que determinou reajuste salarial e benefícios aos trabalhadores.
Para reduzir os impactos da greve, o Município liberou vouchers em um aplicativo de transporte para garantir o deslocamento dos usuários cadastrados no sistema. Além disso, a Prefeitura ingressou na quinta-feira (12) com ação na Justiça do Trabalho pedindo a declaração de abusividade da greve e adoção de medidas que assegurem circulação mínima do transporte coletivo.
Já o Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros (SET) contesta essa versão, afirmando que o subsídio pago atualmente pela Prefeitura ainda é o mesmo de janeiro de 2024, mesmo com dois reajustes salariais concedidos aos trabalhadores e aumento em todos os outros custos do serviço. O sindicato também destacou que o preço do diesel aumentou R$ 1,40 o litro apenas na última semana.
O SET afirma que as diversas greves ocorridas desde 2021 são resultado do reiterado descumprimento do contrato por parte do Município, fato que teria sido confessado em vídeo pelo próprio prefeito. O sindicato mantém que tem buscado o diálogo, tendo protocolado diversos pedidos de reunião junto à SMTT desde o início de 2025.
