O quarto encontro do Agenda Santos 500+, realizado no auditório do Grupo Tribuna, teve a mobilidade urbana como tema central. Especialistas e representantes do poder público debateram os desafios de deslocamento em Santos, considerando as limitações do sistema viário, a redução no uso do transporte coletivo e o crescimento das operações portuárias.
Dados da CET sobre circulação
O presidente da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), Antonio Carlos Silva Gonçalves, apresentou dados relevantes. Santos possui cerca de 288 mil veículos registrados e recebe diariamente entre 12 mil e 14 mil caminhões com destino ao Porto. Ele destacou que 67% das vias têm até seis metros de largura, limitando ampliações ou mudanças estruturais. Para Gonçalves, o cenário exige planejamento constante e medidas de curto, médio e longo prazos. Entre as ações atuais estão alterações de circulação, ajustes em semáforos, fiscalização e campanhas educativas.
Adaptação às mudanças de comportamento
Gonçalves afirmou que a gestão do trânsito precisa se adaptar às mudanças de comportamento dos motoristas. “Não temos um agente a cada 100 metros. Precisamos atuar estrategicamente, mudando os pontos de fiscalização. Hoje, com celular, as pessoas avisam onde estão as blitze”, disse.
Queda no transporte coletivo
O transporte coletivo também foi abordado. Desde 2015, houve queda no número de passageiros, influenciada pelo uso de transporte por aplicativo. Atualmente, o sistema transporta cerca de 2,2 milhões de passageiros por mês, contra mais de 3 milhões anteriormente. Gonçalves citou ainda a mudança na distribuição populacional: bairros como Ponta da Praia e Marapé cresceram, enquanto áreas centrais perderam moradores, alterando os trajetos mais utilizados.
Projeto do túnel é retomado
O projeto do túnel ligando as zonas Noroeste e Leste voltou a ser mencionado como alternativa para melhorar a circulação. Gonçalves afirmou que a obra poderia redistribuir o fluxo de veículos entre regiões que hoje dependem dos mesmos acessos. “O túnel resolve muito o trânsito, porque desafoga o trânsito do morro, da Nova Cintra e da praia. Dá uma opção a mais de deslocamento”, disse. A proposta é discutida oficialmente desde 1994 e depende de investimento e articulação com outras esferas de governo.
Escolhas urbanas e transporte coletivo
O diretor da Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos (NTU), Marcos Bicalho, afirmou que os desafios de Santos são comuns a várias cidades. Para ele, a mobilidade urbana está ligada ao planejamento urbano. Em locais com espaço viário limitado, não é possível acomodar o crescimento do uso do automóvel sem mudanças. Investir em infraestrutura não basta; é preciso influenciar as escolhas das pessoas.
O coordenador do Núcleo de Mobilidade Urbana do Centro de Estudos das Cidades do Insper, Sérgio Avelleda, disse que os problemas urbanos não podem ser analisados apenas pelo trânsito. “Uma cidade com problema de mobilidade urbana está doente. O trânsito é um sintoma, não a causa.” Para ele, o planejamento urbano que prioriza o automóvel aumenta a dependência do carro e os congestionamentos. “Não existe solução fora do transporte coletivo. Ele é a espinha dorsal da mobilidade urbana”, defendeu, priorizando também caminhada e bicicletas.
Impacto do Porto na mobilidade
O diretor da A&M Infra, Luiz Soggia, apresentou dados sobre o crescimento do Porto de Santos. O volume aumentou cerca de quatro vezes nos últimos 25 anos, sem novos projetos estruturantes na mesma proporção. A perimetral, principal via para caminhões, é o exemplo de obra realizada. A diferença entre crescimento da demanda e infraestrutura contribui para congestionamentos, especialmente nos acessos à cidade. “Ainda estamos na ineficiência, mas cada vez mais nos tornando um gargalo”, afirmou.
Soggia destacou que há previsão de novos investimentos em infraestrutura nos próximos anos, mas alertou para o risco de colapso durante as obras se não houver coordenação. “Se não houver coordenação, existe risco de um colapso de implantação”, disse, citando que os projetos são conduzidos separadamente, sem visão integrada.
Os participantes concluíram que os desafios da mobilidade em Santos exigem ações integradas, envolvendo gestão do trânsito, transporte coletivo, planejamento urbano, infraestrutura portuária e mudanças nos hábitos de deslocamento.



