Vendedor de café na Anhanguera viraliza com 'bom dia' e simpatia
Vendedor de café na Anhanguera viraliza com 'bom dia'

Enquanto a maior parte de São Paulo ainda dorme, o vendedor ambulante Joab Borges Reis, de 33 anos, já está de pé na Vila Jaguara, na Zona Oeste. Antes do amanhecer, ele prepara mais de 20 garrafas de café e chocolate quente para enfrentar a rotina às margens do quilômetro 12 da Rodovia Anhanguera, uma das principais portas de entrada da capital paulista.

Após três anos trabalhando no local, Joab viu a rotina mudar em maio. Um vídeo gravado por um motorista viralizou nas redes sociais e já ultrapassou 5 milhões de visualizações. “Esse cliente já tinha me filmado algumas vezes e postado, mas nunca explodiu dessa forma. Do nada, as coisas tomaram uma proporção enorme. Fiquei muito feliz, de verdade. Deu uma reviravolta na minha vida. Estão acontecendo coisas que só Deus mesmo. Só agradecer”, emociona-se.

Trajetória e inspiração

Antes de vender café na rodovia, Joab trabalhava para a família em um comércio. Desempregado, a inspiração veio ao assistir vídeos de Christian Quirgo, conhecido como “Rei do Café”, vendedor no Rio de Janeiro. “Quando vi os vídeos dele, falei: 'poxa, que ideia bacana'. Na época ainda estava empregado. Aí fiquei desempregado e disse: 'agora é a hora. Vou tentar vender café’.”

Banner largo do Pickt — app de listas de compras colaborativas para Telegram

No cardápio, há café puro, café amargo, café com leite e chocolate, vendidos por R$ 4. Já o pão de queijo e o bolo custam R$ 7. Os pagamentos podem ser feitos pelo chamado “pix da confiança”, quando o cliente pega o produto e faz a transferência depois, sem que Joab confira o comprovante no momento.

Preparo e vendas

Joab conta que ele mesmo prepara o café e o chocolate quente. Apenas o pão de queijo e o bolo são comprados prontos. “O pão de queijo pego em uma padaria e o bolo é uma vizinha que faz. Senão também não durmo”, brinca. Nos dias mais frios, ele leva até 28 garrafas de café. Em dias normais, cerca de 25 para evitar desperdício.

O começo foi difícil. “Quando comecei, levava cinco garrafas e voltava com quatro cheias todo dia. Quando consegui vender três garrafas em um único dia, parecia que tinha ganhado um troféu.” Para conquistar clientes, apostou na apresentação. “Fui de avental, luva, camisa preta com meu logo 'café do Jô’. Tem que ir num padrão para a pessoa confiar.”

As vendas demoraram a engrenar. “Fiquei umas duas semanas vendendo uma garrafa de café até conquistar os clientes.” Segundo ele, o diferencial foi o tratamento. “O que conquistei não foi nem o café, foi o bom dia. Dou bom dia para todo mundo até hoje. ‘Bom dia, Deus abençoe seu dia’. Isso chamou a atenção.”

O cliente Rafael Muller, responsável pelo vídeo viral, ressalta: “O diferencial dele não é o café, é o amor que ele faz por aquilo. Dá para ver nos olhos dele o sorriso, a simpatia, o capricho. Tudo muito limpo, organizado. Ele faz questão de dar atenção para todo mundo.” Rafael não imaginou que a imagem alcançaria milhões de visualizações tão rápido. “Foi um insight de criador de conteúdo. Puxei o celular e comecei a filmar. Segundos antes de chegar perto dele. Já tinha comprado antes e o café dele é muito bom. O pão de queijo, o bolo, o chocolate que minha esposa toma também são bons. Nem café em casa a gente faz mais. E pegamos uma amizade forte por causa do vídeo.”

Sonhos para o futuro

Pai solo de um menino de 12 anos, Joab mora na Vila Jaguara. No início, ia de moto para a Anhanguera, mas perdeu o veículo. “A moto estava com conta atrasada. Um belo dia, saindo do café, perdi a moto. Tinha um carrinho velhinho. Passei a ir com ele e deu certo. Deixo perto do local e vou andando.”

Apesar dos riscos de trabalhar na rodovia, como atropelamento, Joab nunca pensou em desistir. “Corremos o risco de ser atropelado, de o rapa levar tudo. Mas medo nunca tive. Vim da roça, fui criado na Bahia, e nunca tive medo de emprego. Sendo digno, é o que vale.” Às vezes, leva prejuízo com clientes que não pagam. “De vez em quando sempre leva, né? Não tem jeito.”

A repercussão coincidiu com o mês de aniversário da mãe, que morreu quando Joab tinha 15 anos. “O vídeo viralizou no mês do aniversário dela. Dia 18/05 estava gravando entrevista. Explodiu tudo. Parece que foi um presente que ela me deu.”

Banner pós-artigo do Pickt — app de listas de compras colaborativas com ilustração familiar

Apesar da fama, Joab afirma que leva uma vida simples. “Não é o caso de faturar bem, mas a gente consegue se manter. Trabalhar para a gente é melhor do que CLT.” No futuro, sonha em deixar São Paulo e voltar para a Bahia. “Minha meta é essa: daqui 15 anos poder ir embora e acabar os meus dias de vida lá.”