O motoboy Francisco Carlos Monteiro, de 57 anos, que ficou paraplégico após um acidente de trânsito em São Vicente, no litoral de São Paulo, recebeu uma aplicação de polilaminina, uma proteína experimental desenvolvida pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). A família do trabalhador encontrou o tratamento após ver uma reportagem sobre o caso de outro paciente que obteve na Justiça o direito de usar a substância.
Melhora gradativa
Segundo a filha mais velha do motoboy, Mariana Ferreira Monteiro Guedes, de 27 anos, a aplicação ocorreu no sábado, 16 de novembro, e os resultados já começaram a aparecer. "Percebemos uma melhora gradativa. Um dia após a aplicação, a sensibilidade dele foi diminuindo do local examinado. Ele também relatou calafrios na perna, que antes não sentia nada. Três dias depois, sentiu as coxas e a batata da perna no exame", comemorou Mariana.
O acidente
O acidente aconteceu por volta das 5h do dia 12 de novembro, quando Francisco seguia para a primeira entrega do dia na Avenida Presidente Wilson, no bairro Itararé. Ele perdeu o controle da moto e caiu. Socorrido pela Polícia Militar, foi levado ao Pronto-Socorro de São Vicente, onde foi diagnosticada fratura na terceira vértebra torácica (T3), com perda de sensibilidade e movimentos abaixo da lesão. Transferido para a Santa Casa de Santos, passou por duas cirurgias para alinhamento da coluna e descompressão medular, mas o diagnóstico de paraplegia foi confirmado.
Busca por tratamento
A família, em busca de alternativas, encontrou uma reportagem sobre um homem que ficou paraplégico em competição de motocross e conseguiu na Justiça o direito de receber a polilaminina em Cachoeiro de Itapemirim, no Espírito Santo. Mariana explicou que, no caso do pai, foi possível obter autorização da Anvisa sem necessidade de ação judicial, graças à rapidez no envio dos documentos. "Conseguimos enviar todos os documentos em 72 horas", disse.
A equipe da cientista Tatiana Sampaio, líder da pesquisa na UFRJ, veio do Rio de Janeiro para aplicar a medicação em Santos. Agora, Francisco iniciará fisioterapia intensiva. Ele permanece na UTI, mas deve ser transferido para o quarto ainda nesta semana. A família criou uma campanha nas redes sociais para custear a recuperação.
O que é a polilaminina
A polilaminina é uma versão recriada em laboratório da laminina, proteína presente no desenvolvimento embrionário que ajuda os neurônios a se conectarem. A expectativa é que, aplicada no local da lesão, estimule os nervos a criar novas rotas e restabelecer parte dos movimentos. Estudos em cães e pequenos grupos de brasileiros, em caráter experimental, mostraram que alguns voluntários que haviam perdido movimentos recuperaram parte da mobilidade, desde pequenos movimentos até controle de tronco e passos com auxílio.
A Anvisa autorizou a primeira fase do estudo clínico, que avaliará a segurança da aplicação em cinco pacientes com lesões agudas completas da medula espinhal torácica entre T2 e T10, ocorridas há menos de 72 horas, com indicação cirúrgica. Mais de cinco pacientes já receberam a substância por decisões judiciais, mas sem acompanhamento em protocolo estruturado. O estudo é a primeira de três fases necessárias para o futuro registro da polilaminina.



