A atleta mineira Eliana Tamietti, de 48 anos, conhecida no meio esportivo como Lili, faleceu na madrugada do último sábado (9) enquanto participava de uma prova de ciclismo de ultradistância na região de Piranguçu, sul de Minas Gerais. A competição, organizada pelo Bikingman Brasil, tinha um percurso total de 555 quilômetros, com partida e chegada em São José dos Campos (SP), atravessando cidades mineiras e paulistas pela Serra da Mantiqueira.
Segundo Vinícius Martins, diretor da prova, as circunstâncias da morte ainda não foram totalmente esclarecidas. “Ela sofreu um mal súbito, não se sabe exatamente o que foi. Estava em cima da bicicleta e bateu no barranco”, explicou. Eliana pedalava acompanhada por outros três ciclistas. O grupo havia feito uma breve pausa, e ela seguiu alguns segundos à frente antes do acidente. Os próprios participantes acionaram o socorro imediatamente. Equipes do Samu, Corpo de Bombeiros, Polícia Militar e Polícia Civil estiveram no local, mas o óbito foi constatado ainda na estrada. A Polícia Civil realizou perícia e encaminhou o corpo ao Posto Médico-Legal para exames de necropsia, que devem determinar a causa da morte.
Uma história de superação e transformação
Amigos e companheiros de pedal descrevem Eliana como um símbolo de superação, liberdade e transformação por meio do esporte. Apaixonada pelo ciclismo, ela começou a pedalar após os 40 anos, reinventou-se como atleta e tornou-se referência feminina nas provas de ultradistância no Brasil. O ciclista Vinícius Freitas, um dos amigos mais próximos, contou que ela iniciou no mountain bike, passou para provas de estrada e depois se apaixonou pelo ultraciclismo. “Ela começou a andar de bicicleta há cerca de cinco anos e se entregou de forma completa. O esporte foi protagonista na transformação da vida dela”, afirmou.
Segundo Vinícius, Eliana tornou-se um exemplo de reinvenção para outras mulheres. “Muitas mulheres passam a vida sem acreditar que ainda podem sonhar. A Lili se entregou ao sonho do esporte, conquistou grandes resultados e virou referência”, disse. A modalidade de ultraciclismo exige que os atletas percorram centenas de quilômetros praticamente sem apoio, carregando seus próprios equipamentos e tomando decisões sozinhas. “Ela amava isso. O exemplo da Lili vai além do esporte”, completou.
Personalidade intensa e contagiante
A ciclista Laura Marques, de 41 anos, conheceu Eliana após ela vencer o Caminhos de Rosa, uma das principais provas de resistência do ciclismo mineiro. As duas passaram a treinar juntas e desenvolveram uma amizade dentro do esporte. “Quando vi a empolgação dela no Caminhos de Rosa, pensei: essa mulher tem perfil para o Bikingman”, contou Laura. Segundo ela, Eliana tinha uma personalidade intensa e contagiante. “Ela vivia tudo de forma intensa, era competitiva consigo mesma, queria sempre se superar. Era muito conhecida por não desistir”, disse.
Laura lembrou ainda que Eliana incentivava constantemente outras pessoas, principalmente mulheres, a começarem no esporte. “Ela veio de um histórico que não era favorável para um atleta. Contava que era obesa, perdeu peso e se encontrou no ciclismo. Isso fazia dela uma inspiração para muitos”, afirmou.
Referência feminina no ultraciclismo
Mesmo tendo começado tarde, Eliana rapidamente acumulou resultados importantes. Foi bicampeã dos 300 quilômetros do Caminhos de Rosa, em 2023 e 2024, e vice-campeã mineira de contra-relógio individual em 2023. Em 2025, completou sua primeira prova internacional de ultradistância, a Across Andes, com 857 quilômetros e mais de 12 mil metros de altimetria acumulada. Também participou de edições anteriores do Bikingman em 2024, 2025 e 2026. No ano passado, terminou a edição Mantiqueira da prova com mais de 9 mil metros de altimetria e conquistou o terceiro lugar entre as mulheres.
Segundo Vinícius Martins, Eliana já era reconhecida nacionalmente na modalidade e tinha apoio formal de uma fabricante internacional de bicicletas. “Era embaixadora de uma grande marca e tinha reconhecimento importante no ciclismo feminino amador”, afirmou. O ciclista John Edesson, que a conheceu em eventos em 2024, disse que ela acolhia atletas que passavam por Belo Horizonte. “Toda vez que eu passava por BH, ela me ajudava. Era uma pessoa muito inspiradora”, contou.
“Viva intensamente cada momento”
Em um depoimento divulgado por um patrocinador no ano passado, Eliana resumiu sua visão sobre o esporte e a vida: “Cada vez que você transpõe um desafio, você quer mais. A gente vai escalonando os sonhos. Uma pessoa que é capaz de pedalar 300 km sem parar tem uma mente transformada. Ela não acredita que as coisas são impossíveis, ela acredita que tudo é possível. Viva intensamente cada momento”.
Eliana deixa o marido, Marcos Paulo, e a filha Bárbara, de 27 anos. Mesmo após a morte da atleta, a organização decidiu manter a competição em acordo com a família. “Toda a equipe do BikingMan presta suas mais sinceras condolências e, com a decisão em conjunto com a família, seguiremos com o evento honrando a vontade da Lili em percorrer os caminhos da Mantiqueira”, informou a organização. O sepultamento ocorreu no domingo (10), no Parque Renascer Cemitério e Crematório, em Contagem (MG).



