O professor de jiu-jítsu e investigador da Polícia Civil Melqui Galvão, preso recentemente sob suspeita de abuso sexual contra uma aluna, já havia sido detido anteriormente por homicídio qualificado. O caso ocorreu em 2011, durante a operação “Cachoeira Limpa”, em Presidente Figueiredo, interior do Amazonas, que terminou com a morte do empresário Fernando Pontes, conhecido como “Ferrugem”.
Detalhes da operação de 2011
De acordo com o Ministério Público do Amazonas (MP-AM), Melqui Galvão foi apontado como um dos autores dos disparos que mataram o empresário. A operação, que investigava uma rede de pedofilia e exploração sexual de adolescentes na região, contou com a participação de policiais do Grupo Força Especial de Resgate e Assalto (Fera). O empresário Fernando Pontes, de 25 anos, foi morto dentro de casa, no dia 12 de maio de 2011, com tiros à queima-roupa.
Imagens contradizem versão policial
Imagens obtidas pela Rede Amazônica mostram o momento em que os policiais entram no imóvel, arrombam a porta e ordenam que o empresário saísse do quarto com as mãos na cabeça. Pontes aparece desarmado, levanta as mãos, cai sobre a cama e, em seguida, são ouvidos disparos. Após a sequência, um revólver é exibido na cena. A família da vítima nega que ele tenha reagido. Na época, policiais civis afirmaram que o empresário estava armado com um revólver calibre 32 e que teria reagido à abordagem. O Sindicato dos Policiais do Amazonas (Sinpol) também sustentou a versão de legítima defesa.
No entanto, o Ministério Público concluiu que houve execução. Para o promotor responsável pela denúncia, Leonardo Abinader Nobre, as imagens indicam que a vítima não ofereceu risco aos agentes. O corregedor auxiliar da Polícia Civil à época também afirmou não haver dúvidas de que o empresário não estava armado no momento da ação.
Consequências legais
Melqui Galvão e outro policial chegaram a ser presos por ordem da Justiça após o caso, mas foram soltos depois do prazo da prisão preventiva expirar. Outros agentes também foram denunciados. O promotor que acompanhou a operação respondeu a procedimentos administrativos por suspeita de omissão. O g1 questionou o Ministério Público do Amazonas e o Tribunal de Justiça do Amazonas sobre o andamento do processo, mas não houve resposta até a publicação desta reportagem.
Quem é Melqui Galvão
Melqui Galvão é conhecido no meio esportivo como faixa preta e treinador de jiu-jitsu, sendo responsável por uma academia na Zona Norte de Manaus. Ele também é pai do multicampeão da modalidade, Mica Galvão. Após a prisão do pai, Mica usou as redes sociais para se manifestar. Ele afirmou que vive um momento difícil, destacou a relação com o pai e defendeu que o caso seja apurado com rigor pelas autoridades.
“É difícil encontrar palavras para um momento como esse. Meu pai, Melqui Galvão, foi quem me colocou no tatame pela primeira vez ainda criança. Foi ele quem me ensinou a lutar, a competir, a respeitar o adversário e a ter caráter”, escreveu. Na publicação, o atleta também repudiou qualquer tipo de violência. “Como pessoa, repudio qualquer forma de assédio ou violência contra mulheres e crianças — esse é um valor que carrego e que não abre exceção”, afirmou.
Investigação e prisão recente
Segundo a investigação, o caso veio à tona após uma adolescente de 17 anos, ex-aluna do treinador, denunciar a prática de atos libidinosos não consentidos durante uma competição esportiva realizada fora do país. A vítima está atualmente nos Estados Unidos e foi ouvida pelas autoridades, junto com familiares. A prisão temporária foi decretada após denúncias reunidas pela 8ª Delegacia de Defesa da Mulher (DDM), que apura relatos de abusos envolvendo ao menos três vítimas.
De acordo com a polícia, os denunciantes apresentaram uma gravação na qual o investigado admite indiretamente o ocorrido e tenta evitar que o caso seja levado adiante, com a promessa de compensação financeira. Durante a apuração, outras duas possíveis vítimas foram identificadas em diferentes estados do país. No depoimento, elas relataram episódios semelhantes. Em um dos casos, a vítima afirmou ter 12 anos na época dos fatos.
Segundo a polícia, Melqui Galvão havia viajado menos de 24 horas antes para o estado do Amazonas. Após contato entre as corporações, ele se apresentou às autoridades em Manaus, onde teve a prisão cumprida. Além da prisão temporária, foram cumpridos três mandados de busca e apreensão em endereços ligados a ele em Jundiaí, no interior paulista. O caso tem gerado forte repercussão na comunidade do jiu-jitsu. A Polícia Civil segue com as investigações para apurar a extensão dos crimes e identificar possíveis novas vítimas. O g1 não localizou, até a última atualização desta reportagem, a defesa de Melqui Galvão.



