Ubatuba, no litoral norte paulista, registrou 24 homicídios dolosos em 2025, quase o dobro dos 13 casos de 2024, conforme dados da Secretaria de Segurança Pública. O aumento está ligado a uma disputa territorial entre o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV). Em dezembro de 2024, um homem e um adolescente foram mortos a tiros dentro de um carro na Estrada de Camburi, crime atribuído a esse conflito.
Expansão do Comando Vermelho em território paulista
Pesquisadores e investigadores ouvidos pela BBC News Brasil apontam que o CV vem fazendo incursões em São Paulo, especialmente em duas áreas: próximo à fronteira com o Rio de Janeiro, como Ubatuba, e na região de Piracicaba. O movimento é explicado pela expansão nacional do CV e pela mudança de foco do PCC, que prioriza o tráfico internacional e outros negócios lucrativos, deixando o varejo de drogas local.
O promotor Lincoln Gakiya, do Gaeco, destaca que o tráfico interno dá mais trabalho e menos lucro, com maior risco de prisão. Já o tráfico internacional oferece margens enormes: o quilo de cocaína comprado por R$ 5 mil pode ser vendido por até R$ 750 mil na Ásia. Essa dinâmica fez o PCC abandonar pontos de venda, as chamadas “biqueiras”, abrindo espaço para o CV.
Violência na região de Piracicaba
Na região de Piracicaba, o conflito é mais violento. O grupo local “Bonde do Magrelo”, aliado ao CV, atua com extrema violência, usando fuzis e rastreadores. Seu líder, Anderson Ricardo de Menezes, está preso, mas o grupo continua ativo. Em maio, a operação “Red Flag” prendeu dois suspeitos ligados ao CV em Rio Claro e Paulínia.
Histórico da presença do CV em São Paulo
O CV já atuou em São Paulo antes da hegemonia do PCC, na Baixada Santista e na periferia da capital, mas foi expulso nos anos 2000. Após uma trégua, o pacto foi rompido em 2016 com o assassinato do traficante Jorge Rafaat no Paraguai. Desde então, o CV se expandiu por rotas alternativas, como a do Solimões, e incorpora grupos locais com estrutura menos centralizada que a do PCC.
Mudanças internas no PCC e nova geração
O rearranjo do crime organizado em São Paulo tem como pano de fundo a menor adesão dos jovens à ideologia do PCC. “Os jovens querem ganhar dinheiro, não estão ligando para a hierarquia”, afirma Gakiya. Isso se reflete no sistema prisional, com aumento de agressões em dias de visita, algo proibido pelo código da facção.
O sociólogo Eduardo Dyna observa que ordens do PCC, como a proibição de roubar nas periferias, não são mais seguidas. Membros mais velhos, que poderiam disciplinar, mudaram-se para bairros de classe média. Apesar disso, Gakiya e Dyna não veem o PCC como enfraquecido, mas consideram a presença do CV ainda incipiente.
Uma eventual guerra entre facções em São Paulo poderia reproduzir dinâmicas violentas de outros estados, com aumento de armamento e confrontos com a polícia. A última disputa desse tipo ocorreu no fim dos anos 1990, quando o estado registrou 35 homicídios por 100 mil habitantes, número que caiu para 5,46 em 2025.



